terça-feira, 15 de agosto de 2017

ENTREVISTA COM "ÁLVARO DE MOYA" - RAFAEL SPACA - REVISTA BRAVO

O mestre da HQ
Entrevista inédita concedida por Álvaro de Moya, nome central nos quadrinhos brasileiros, morto nesta segunda-feira em decorrência de um AVC


Por Rafael Spaca
Conhecia sua história, mas não o conhecia pessoalmente até o nosso amigo em comum, o sr. Kendi Sakamoto (o maior colecionador de HQs do país), nos apresentar. A apresentação foi motivada pela produção em andamento da biografia da atriz Débora Munhyz (a grande musa de José Mojica Marins), em que eu estava trabalhando à época. Álvaro de Moya dirigiu Débora em A B…Profunda (1984), filme de sexo explícito da fase mais “maldita” da nossa famigerada Boca do Lixo. De todas as suas facetas, essa, do cinema, era a mais desconhecida.
O ano era 2015, Kendi Sakamoto marcou um almoço numa padaria chique no também bairro chique de Moema, São Paulo. Chegamos primeiro e logo em seguida Moya nos encontrou. Percebi que ele era um dos nossos quando encheu seu prato de comida, sem esboçar qualquer maneirismo, chutando pra longe qualquer empulhação.
Começamos a conversar sobre cinema, e tudo aquilo que ela falava, de maneira quase despretensiosa, pra mim era uma palestra. Pedi sua permissão e comecei a gravar. Com uma mão eu almoçava e com a outra eu gravava seu depoimento. Moya falava, mastigava e ensinava, tudo ao mesmo tempo. Ao concluir seu depoimento, já imaginava o quão histórico seria. Transcrevi esse relato e ele estará, na sua íntegra, no livro Débora Munhyz, do Terror ao Amor (Editora Laços, 248 páginas), que será lançado agora, no dia 29 de agosto, no Cine Olido.
Depois disso nos encontramos outras vezes, sempre em lançamentos de livros. Nosso último encontro foi no dia 6 de maio deste ano, na Ugra Press, quando do lançamento do meu último livro, As HQs dos Trapalhões (Editora Estronho). Estávamos fazendo um bate-papo quando ele desceu a escada e, em voz alta, Bira Dantas, um dos palestrantes, anunciou: senhoras e senhores, Álvaro de Moya! Todos aplaudiram. Ele se acomodou e começou a ouvir a conversa. Não demorou muito e, na plateia, Moya começou a mostrar quem realmente sabe das coisas ali.
Nunca arrogante, pedante, como vemos aos montes por aí. Esses medíocres que arrotam uma suposta inteligência sempre foram ironizados por Moya. Era um sujeito boa praça, generoso, sempre disposto a compartilhar seu conhecimento.
Nosso último contato foi por telefone. Conversamos a respeito da série de entrevistas para a Bravo! e ele ficou muito feliz. Era um entusiasta da preservação e da difusão da memória e da cultura dos quadrinhos no país.
Deve ter sido sua última entrevista. Segue ela abaixo.



Você nasceu em 1930, como foi a sua infância?
Infância de família burguesa, muito dramática. Narro no meu livro inédito O Mundo é Quadrado.

Nas décadas de 30 e 40 como era o mercado de gibis no Brasil?
Era ótimo para os quadrinhos americanos. Difícil para os brasileiros.
Você é considerado por muitos como o maior especialista em histórias em quadrinhos do país. Esse seu conhecimento foi cultivado desde a infância?
Nós, jovens, queríamos fazer quadrinhos e notamos que precisávamos saber escrever e líamos muitos clássicos: Tchecov, Hemingway, Faulkner, Sartre.

Além de conhecer a história, você também desenha. Como desenvolveu sua habilidade para o traço?
Fui discípulo de Jayme Cortez no desenho, Sylas Roberg em literatura, Walter George Durst em televisão, Rubem Biáfora em cinema.

Se especializou em algum curso?
Me especializei em cabular aulas para ir ao cinema. Ler gibis em vez dos livros escolares. Autodidatismo em coisas que gostava. Literatura, cinema, música, quadrinhos, etc.

Nos jornais O Tempo, Jornal da Tarde, Folha de S.Paulo e O Estado de São Paulo você trabalhou como chargista. Como era a sua dinâmica de trabalho?
Em O Tempo era o ilustrador do jornal. Mas também escrevi artigos. Em dezembro de 1950, Syllas e eu escrevemos um dos primeiros artigos em jornais sobre Al Vapp, autor de Li’l Abner (Ferdinando). E com Walter George Durst sobre o macarthismo em Hollywood.

Qual era o seu enfoque nas charges? Era livre ou seguia a orientação de algum diretor?
Era difícil fazer charges, como desenho e como temática.

O que um bom chargista precisa ter?
Senso de humor, crítica social, humanismo e odiar políticos…


Na Editora Abril muitas capas do Pato Donald e Mickey foram produzidas por você. Nesse caso você tinha que seguir as diretrizes da matriz americana. Como era o sistema de trabalho para estes desenhos?
Só no estilo. Liberdade total para as capas. Notei que as revistas ficavam escondidas nas bancas de jornais. Desenhei uma carinha do Mickey, outra do Pato Donald, assim o jornaleiro via o desenho no topo, embaixo de outras revistas. Os comic books de super-heróis copiaram. Não era importante como o 14 Bis, mas os irmãos Wright dos comics estavam alertas…

Você também desenhou as versões de A Marcha, de Afonso Schmidt (Edições Maravilhosas, da EBAL — Editora Brasil América), Zumbi e Macbeth para a Clássicos de Terror. Fale a respeito destes trabalhos. O traço para este tipo de trabalho é mais apurado?
Eu era influenciado por Alex Raymond (perdão!). Dava muito trabalho, era lento para desenhar e rápido no texto. Pesquisa era difícil na época. Decidi fazer Zumbi sem pesquisa iconográfica como na Marcha. Pensei em Tarzan. Mas o texto questionava o suicídio de Zumbi. Copiei uma carta do governador de Pernambuco dizendo como Zumbi foi traído e morto numa caverna. Até hoje os livros clássicos de História do Brasil como Rocha Pombo, são reimpressos com a balela do suicídio. Já imaginaram? Os quadrinhos perseguidos e contestando os marajás da nossa História?

Tudo era feito em nanquim?
Sim. E papel importado, Schoeler. E pincel Winsor & Newton.

Onde produzia seus desenhos, tinha um estúdio próprio?
Estúdio em casa ou na redação dos jornais.

Como foi montar a Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos (junto com Jayme Cortez, entre outros), em 1951, na cidade de São Paulo? Como surgiu a ideia e do que se tratava?
Foi uma loucura. Eu que falava e escrevia em inglês, tive a ideia de escrevermos para os artistas americanos pedindo originais com a desculpa de fazer uma exposição. Um deles, não lembro quem, disse que era a primeira vez que alguém pedia para pendurar na parede um desenho seu. Descobrimos que éramos pioneiros…

Como foi a receptividade desta exposição?
Éramos da imprensa, teve cobertura no Rio e em São Paulo, na pioneira TV Tupi (para quem eu desenhara os letreiros do show inaugural do dia 18 de setembro de 1950).

Como define seu traço?
Um Alex Raymond fracassado.

Qual foi o período de ouro na produção e leitura das HQs nacionais?
Anos 30.

Por que ninguém, aqui no Brasil, consegue fazer frente à Turma da Mônica?
Mauricio e Ziraldo vieram beneficiados pela nossa eterna luta pelos quadrinhos nacionais e pela linguagem revolucionária dos comics.

Esse monopólio não é ruim para o país?
Pelo contrário. Mauricio há muito vende mais que Disney. Ziraldo tem mais prestígio internacional que aqui. O mercado provou que os editores do meu tempo eram cegos.

Acredita que podemos criar uma indústria de HQs no Brasil?
A única indústria cultural é a televisão. Graças à Tupi, Record, Excelsior e Globo.

Ainda há preconceito contra as HQs?
Infelizmente, sim.

O que é mais importante: seu trabalho como acadêmico ou como desenhista?
Nenhum dos dois. Apenas como lutador pelo reconhecimento dos quadrinhos como arte.


Que nota você se daria como desenhista?
Não gosto do meu trabalho como desenhista ou autor de quadrinhos. Gosto do que fiz na TV Excelsior. Nos escritos sobre cinema, onde trabalhei na produção, distribuição na Polifilmes, no cinema como exibidor no cine Marachá e sessões malditas, filmes que programei nas televisões. Gosto dos livros Shazam! E Gloria in Excelsior. A nota como desenhista, na minha opinião é muito baixa. Melhor ver as opiniões dos outros.

ENTREVISTA GENTILMENTE CEDIDA POR RAFAEL SPACA PARA PUBLICAÇÃO AQUI NO BLOG, UMA SINGELA FORMA DE HOMENAGEAR O GRANDE ÁLVARO DE MOYA, UM DOS MAIORES ENTENDIDOS EM HQs NACIONAIS. A ENTREVISTA PODE SER LIDA TAMBÉM NO BLOG DA REVISTA BRAVO EM: https://medium.com/revista-bravo/o-mestre-da-hq-98d4220b0451

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

HQ "INOCENTE ASSASSINA" - AGENTE LARANJA ESPECIAL - EVANDRO LUIZ

Como todos já sabem, o especial da Adriana, a Agente Laranja foi publicado essa semana, e uma das HQs ilustrada pelo Evandro Luiz ficou virada, dificultando a leitura. Diante disso, disponibilizo ela aqui no blog para leitura, para quem não tem o fanzine impresso...

terça-feira, 8 de agosto de 2017

LANCELOTT POR LANCELOTT - MÚLTIPLO 10

Lancelott por Lancelott

01 – Quem sou?!
Eu?! Saio às ruas, de vez em quando...

02 – e... sobre mim?!
Só o Sombra sabe!

03 – mas... na real!
Bem... comecei com zines na década de 80, quando aflorou a gênese da minha veia criativa no Fanzine Querela, e entre outros surgiram nas primeiras filas, EXÚ e SETE ESTRELAS e O 4QUARTETO. Depois, uns 20 anos à frente com o advento da internet, vieram O CATALOGADOR, RELÂMPAGO NEGRO, VENTO VENTANIA, COMETA HUMANO, SOMBRA D’ÁGUA e outros que não lembro agora...

04 – Só isso?
Como assim?! Ah.... Elaborei há uns dez anos atrás um Catálogo de Heróis Brasileiros, que hoje atualizei e fiz uma versão impressa pela Universo Editora. É um projeto de dez volumes com pelo menos uns 400 personagens do quadrinho brasileiro e participação de vários artistas do cenário independente.

05 – E...?
Se publiquei alguma coisa? Publico no momento o Projeto Encontros, com O CATALOGADOR e vários personagens mais antigos do nosso Quadrinho e neste, tenho como parceiros os desenhistas Rom Freire e Zilson Costa. Segue em andamento um projeto com O SETE ESTRELAS, desenhado por Alex Genaro e Rom Freire com roteiros de Rodrigo Marcondes. EXÚ fiz também com a arte de Bruno Lima e roteiro de Leonardo Santana, mas este, ainda na prancheta...

06 – Quantas perguntas eram para fazer mesmo?
Sei não..., mas está bom, né?

UMA BREVE ENTREVISTA EU COMIGO MESMO - LAUDO FERREIRA JR. - MÚLTIPLO 10

O desenhista e roteirista de quadrinhos Laudo Ferreira numa conversa muito franca consigo mesmo.

01-Se formos esquecer essa coisa de me auto entrevistar, eu entrevistando eu mesmo, como é isso para você?
À princípio quando o André Carim, editor do “Múltiplo” me chamou para essa empreitada, sugerindo esse tipo de entrevista, fui relutante, confesso até nem ter gostado muito da ideia, pois pode soar, ou talvez seja mesmo, algo egocêntrico. Mas, como sempre me seduzo por certos desafios, acabei gerando uma interessante logística na minha cabeça para poder fazer essa entrevista.
Enfim, espero que para você também esteja sendo algo no mínimo interessante.


02-Existiria alguma possibilidade de você ser uma pessoa diferente do que é e sempre foi, tanto na arte, quanto na vida?
Há uma infinidade de possibilidades em infinitas dimen-sões. Talvez existam vários Laudos coexistindo agora em outros campos, sendo coisas diferentes do que eu sou. É permitido isso. Quem sabe... um funcionário de banco... um milionário... um empresário bem-sucedido... um men-digo... um homossexual... um travesti... um outro tipo de pai de família... um assassino... muitas possibilidades...
Nessa dimensão, nessa vida, esse Laudo que muitos conhecem é o que optei em ser e ponto final. Assumi muitas coisas, que talvez na ocasião que tenha feito essa escolha, nem mensurasse o tamanho, mas enfim, há algo no meu DNA que é a bússola do que sou e mesmo que mudasse radicalmente meu jeito de ser, pensar, viver e fazer minha arte, esse “algo” ainda estaria lá, então, não tem jeito. Como cantou lindamente Drummond em “Poema de sete faces”: quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra disse – Vai Carlos, vai ser gauche na vida!


03-Vamos falar de arte agora? Da sua arte.... Qual é a busca dela? Existe, aliás, busca na sua arte?
Talvez. Há alguns anos atrás. Talvez lá no início. Hoje e já há algum tempo, não. Dispensei “rótulos”, estilos, linhas. Buscar que me identifiquem com esse ou aquele gênero. Liberdade absoluta. Faço o que quero e o que meu coração acha no mínimo interessante.

04- Fazer uma obra para refletir ou divertir?
Tudo misturado. Mas, antes de qualquer coisa é preciso que o leitor se identifique com a sua obra.

05- Como está hoje, 2017, o artista e a pessoa que ficou treze anos escrevendo e desenhando uma História em Quadrinhos de quase quinhentas páginas chama “Yeshuah”?
Primeiramente treze anos mais velho. Hoje um pouco mais, pois comecei a desenhar em dois mil e terminei em dois mil e treze. Maduro em certas coisas, penso isso. Sem um pingo de preocupação sobre esse tempo todo vivido. A experiência tem que se misturar ao seu organismo, a sua mente. Deixá-la lá atrás e viver no que ela gerou, mas hoje em dia. Sobre meu profundo amor a esse trabalho produ-zido, todos que conhecem meu trabalho, sabem disso. Ele é único e sempre será, porém, vamos adiante.

06-Há limites no universo de seus quadrinhos? Erotismo, espiritualidade...
Não existem limites. Tudo pode se misturar, se for o caso. E se misturam. Nunca tive esse pensamento, esse tipo pu-dico e ditador de censurar, algo como “isso não pode naquilo”. Claro, existem certas questões que à princípio não se encaixam, mas em um segundo até que sim. Essas duas linhas de HQ’s, a mim são interessantes, atiçam minha curiosidade e minha libido. Não sou falso ou iludido com elas, então me entrego inteiro e esses dois gêneros acabam ficando quase que semelhantes para mim.

07- E por que desses dois gêneros serem pertinentes em seus quadrinhos?
Já cheguei a teorizar sobre, pensando em alguns trabalhos feitos. Talvez pela dualidade, embora como disse anteriormente, essa dualidade em mim transite normalmente. Pelo lado terra do sexo e o lado “céu” do espiritual e ao mesmo tempo, o sentido inverso. Por serem dois elementos que até historicamente falando seduzem o ser humano. Pelos excessos tanto no profano, quanto no sagrado. Pelo mistério de ambos. Enfim, existe uma infinidade de coisas que se pode pontuar, por isso acaba sendo indecifrável, digamos assim e justamente por isso, também, que parei de me questionar, simplesmente aceito como algo inerente em meu trabalho, até o presente momento, claro. Amanhã, de repente, tudo pode mudar, e essa liberdade que é importante.

08- Diante de uma resposta como essa, posso afirmar que você é um autor sem estilo definido?
Dentro de uma teórica, sim. Fiel a mim, dentro da minha perspectiva. E dentro de um plano maior: isso importa?

09- Tianinha... Meia-Lua... David Escarlate... Jambalaya... Zé do Caixão... o assassino da minissérie “Depois da meia-noite”... Jesus... Qual destes personagens que você traba-lhou e trabalha ainda que mais te cativa ou cativou?
Cada um tem seu valor dentro da época que foi feito. Cada um teve um lado meu, como artista e pessoa, que mais foi mexido. Todos me cativam ainda.

10-Repetiria esse tipo de experiência como essa entrevis-ta?
Sim e Não. Não, porque já a fizemos agora e está bom, né? Sim, porque no final das contas, fazemos isso a toda hora, todo instante, não é?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

ADRIANA, A AGENTE LARANJA - ESPECIAL - AGOSTO 2017

Foram meses de contatos com outros artistas, garimpando colaboradores dispostos a emprestar um pouco do seu talento para essa edição especial... Demorou mas saiu... Adriana, a Agente Laranja, um fanzine especial somente com o universo da personagem, ilustrações e HQs produzidas em co-parceria com outros autores... uma experimentação gostosa e que irá prender a sua atenção neste e nos próximos que, com certeza, virão... divirta-se, comente e faça parte dessa aventura inédita!!!

Adriana, A Agente Laranja - Especial by André Carim on Scribd



quinta-feira, 27 de julho de 2017

MÚLTIPLO 10 - AGOSTO DE 2017

Fanzine Múltiplo 10 - Muita HQ, artigos, entrevistas, novidades, apresentação de novas personagens e o espaço do quadrinho nacional sempre em destaque. Venha fazer parte dessa história, colabore, divulgue, comente, distribua os PDF's dos fanzines que compõem o projeto "MÚLTIPLO"!!!

BAIXE AQUI O SEU PDF E ADQUIRA O IMPRESSO NO CLUBE DE AUTORES!!!


MÚLTIPLO 10 - Agosto de 2017 by André Carim on Scribd