terça-feira, 15 de agosto de 2017

ENTREVISTA COM "ÁLVARO DE MOYA" - RAFAEL SPACA - REVISTA BRAVO

O mestre da HQ
Entrevista inédita concedida por Álvaro de Moya, nome central nos quadrinhos brasileiros, morto nesta segunda-feira em decorrência de um AVC


Por Rafael Spaca
Conhecia sua história, mas não o conhecia pessoalmente até o nosso amigo em comum, o sr. Kendi Sakamoto (o maior colecionador de HQs do país), nos apresentar. A apresentação foi motivada pela produção em andamento da biografia da atriz Débora Munhyz (a grande musa de José Mojica Marins), em que eu estava trabalhando à época. Álvaro de Moya dirigiu Débora em A B…Profunda (1984), filme de sexo explícito da fase mais “maldita” da nossa famigerada Boca do Lixo. De todas as suas facetas, essa, do cinema, era a mais desconhecida.
O ano era 2015, Kendi Sakamoto marcou um almoço numa padaria chique no também bairro chique de Moema, São Paulo. Chegamos primeiro e logo em seguida Moya nos encontrou. Percebi que ele era um dos nossos quando encheu seu prato de comida, sem esboçar qualquer maneirismo, chutando pra longe qualquer empulhação.
Começamos a conversar sobre cinema, e tudo aquilo que ela falava, de maneira quase despretensiosa, pra mim era uma palestra. Pedi sua permissão e comecei a gravar. Com uma mão eu almoçava e com a outra eu gravava seu depoimento. Moya falava, mastigava e ensinava, tudo ao mesmo tempo. Ao concluir seu depoimento, já imaginava o quão histórico seria. Transcrevi esse relato e ele estará, na sua íntegra, no livro Débora Munhyz, do Terror ao Amor (Editora Laços, 248 páginas), que será lançado agora, no dia 29 de agosto, no Cine Olido.
Depois disso nos encontramos outras vezes, sempre em lançamentos de livros. Nosso último encontro foi no dia 6 de maio deste ano, na Ugra Press, quando do lançamento do meu último livro, As HQs dos Trapalhões (Editora Estronho). Estávamos fazendo um bate-papo quando ele desceu a escada e, em voz alta, Bira Dantas, um dos palestrantes, anunciou: senhoras e senhores, Álvaro de Moya! Todos aplaudiram. Ele se acomodou e começou a ouvir a conversa. Não demorou muito e, na plateia, Moya começou a mostrar quem realmente sabe das coisas ali.
Nunca arrogante, pedante, como vemos aos montes por aí. Esses medíocres que arrotam uma suposta inteligência sempre foram ironizados por Moya. Era um sujeito boa praça, generoso, sempre disposto a compartilhar seu conhecimento.
Nosso último contato foi por telefone. Conversamos a respeito da série de entrevistas para a Bravo! e ele ficou muito feliz. Era um entusiasta da preservação e da difusão da memória e da cultura dos quadrinhos no país.
Deve ter sido sua última entrevista. Segue ela abaixo.



Você nasceu em 1930, como foi a sua infância?
Infância de família burguesa, muito dramática. Narro no meu livro inédito O Mundo é Quadrado.

Nas décadas de 30 e 40 como era o mercado de gibis no Brasil?
Era ótimo para os quadrinhos americanos. Difícil para os brasileiros.
Você é considerado por muitos como o maior especialista em histórias em quadrinhos do país. Esse seu conhecimento foi cultivado desde a infância?
Nós, jovens, queríamos fazer quadrinhos e notamos que precisávamos saber escrever e líamos muitos clássicos: Tchecov, Hemingway, Faulkner, Sartre.

Além de conhecer a história, você também desenha. Como desenvolveu sua habilidade para o traço?
Fui discípulo de Jayme Cortez no desenho, Sylas Roberg em literatura, Walter George Durst em televisão, Rubem Biáfora em cinema.

Se especializou em algum curso?
Me especializei em cabular aulas para ir ao cinema. Ler gibis em vez dos livros escolares. Autodidatismo em coisas que gostava. Literatura, cinema, música, quadrinhos, etc.

Nos jornais O Tempo, Jornal da Tarde, Folha de S.Paulo e O Estado de São Paulo você trabalhou como chargista. Como era a sua dinâmica de trabalho?
Em O Tempo era o ilustrador do jornal. Mas também escrevi artigos. Em dezembro de 1950, Syllas e eu escrevemos um dos primeiros artigos em jornais sobre Al Vapp, autor de Li’l Abner (Ferdinando). E com Walter George Durst sobre o macarthismo em Hollywood.

Qual era o seu enfoque nas charges? Era livre ou seguia a orientação de algum diretor?
Era difícil fazer charges, como desenho e como temática.

O que um bom chargista precisa ter?
Senso de humor, crítica social, humanismo e odiar políticos…


Na Editora Abril muitas capas do Pato Donald e Mickey foram produzidas por você. Nesse caso você tinha que seguir as diretrizes da matriz americana. Como era o sistema de trabalho para estes desenhos?
Só no estilo. Liberdade total para as capas. Notei que as revistas ficavam escondidas nas bancas de jornais. Desenhei uma carinha do Mickey, outra do Pato Donald, assim o jornaleiro via o desenho no topo, embaixo de outras revistas. Os comic books de super-heróis copiaram. Não era importante como o 14 Bis, mas os irmãos Wright dos comics estavam alertas…

Você também desenhou as versões de A Marcha, de Afonso Schmidt (Edições Maravilhosas, da EBAL — Editora Brasil América), Zumbi e Macbeth para a Clássicos de Terror. Fale a respeito destes trabalhos. O traço para este tipo de trabalho é mais apurado?
Eu era influenciado por Alex Raymond (perdão!). Dava muito trabalho, era lento para desenhar e rápido no texto. Pesquisa era difícil na época. Decidi fazer Zumbi sem pesquisa iconográfica como na Marcha. Pensei em Tarzan. Mas o texto questionava o suicídio de Zumbi. Copiei uma carta do governador de Pernambuco dizendo como Zumbi foi traído e morto numa caverna. Até hoje os livros clássicos de História do Brasil como Rocha Pombo, são reimpressos com a balela do suicídio. Já imaginaram? Os quadrinhos perseguidos e contestando os marajás da nossa História?

Tudo era feito em nanquim?
Sim. E papel importado, Schoeler. E pincel Winsor & Newton.

Onde produzia seus desenhos, tinha um estúdio próprio?
Estúdio em casa ou na redação dos jornais.

Como foi montar a Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos (junto com Jayme Cortez, entre outros), em 1951, na cidade de São Paulo? Como surgiu a ideia e do que se tratava?
Foi uma loucura. Eu que falava e escrevia em inglês, tive a ideia de escrevermos para os artistas americanos pedindo originais com a desculpa de fazer uma exposição. Um deles, não lembro quem, disse que era a primeira vez que alguém pedia para pendurar na parede um desenho seu. Descobrimos que éramos pioneiros…

Como foi a receptividade desta exposição?
Éramos da imprensa, teve cobertura no Rio e em São Paulo, na pioneira TV Tupi (para quem eu desenhara os letreiros do show inaugural do dia 18 de setembro de 1950).

Como define seu traço?
Um Alex Raymond fracassado.

Qual foi o período de ouro na produção e leitura das HQs nacionais?
Anos 30.

Por que ninguém, aqui no Brasil, consegue fazer frente à Turma da Mônica?
Mauricio e Ziraldo vieram beneficiados pela nossa eterna luta pelos quadrinhos nacionais e pela linguagem revolucionária dos comics.

Esse monopólio não é ruim para o país?
Pelo contrário. Mauricio há muito vende mais que Disney. Ziraldo tem mais prestígio internacional que aqui. O mercado provou que os editores do meu tempo eram cegos.

Acredita que podemos criar uma indústria de HQs no Brasil?
A única indústria cultural é a televisão. Graças à Tupi, Record, Excelsior e Globo.

Ainda há preconceito contra as HQs?
Infelizmente, sim.

O que é mais importante: seu trabalho como acadêmico ou como desenhista?
Nenhum dos dois. Apenas como lutador pelo reconhecimento dos quadrinhos como arte.


Que nota você se daria como desenhista?
Não gosto do meu trabalho como desenhista ou autor de quadrinhos. Gosto do que fiz na TV Excelsior. Nos escritos sobre cinema, onde trabalhei na produção, distribuição na Polifilmes, no cinema como exibidor no cine Marachá e sessões malditas, filmes que programei nas televisões. Gosto dos livros Shazam! E Gloria in Excelsior. A nota como desenhista, na minha opinião é muito baixa. Melhor ver as opiniões dos outros.

ENTREVISTA GENTILMENTE CEDIDA POR RAFAEL SPACA PARA PUBLICAÇÃO AQUI NO BLOG, UMA SINGELA FORMA DE HOMENAGEAR O GRANDE ÁLVARO DE MOYA, UM DOS MAIORES ENTENDIDOS EM HQs NACIONAIS. A ENTREVISTA PODE SER LIDA TAMBÉM NO BLOG DA REVISTA BRAVO EM: https://medium.com/revista-bravo/o-mestre-da-hq-98d4220b0451

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

HQ "INOCENTE ASSASSINA" - AGENTE LARANJA ESPECIAL - EVANDRO LUIZ

Como todos já sabem, o especial da Adriana, a Agente Laranja foi publicado essa semana, e uma das HQs ilustrada pelo Evandro Luiz ficou virada, dificultando a leitura. Diante disso, disponibilizo ela aqui no blog para leitura, para quem não tem o fanzine impresso...

terça-feira, 8 de agosto de 2017

LANCELOTT POR LANCELOTT - MÚLTIPLO 10

Lancelott por Lancelott

01 – Quem sou?!
Eu?! Saio às ruas, de vez em quando...

02 – e... sobre mim?!
Só o Sombra sabe!

03 – mas... na real!
Bem... comecei com zines na década de 80, quando aflorou a gênese da minha veia criativa no Fanzine Querela, e entre outros surgiram nas primeiras filas, EXÚ e SETE ESTRELAS e O 4QUARTETO. Depois, uns 20 anos à frente com o advento da internet, vieram O CATALOGADOR, RELÂMPAGO NEGRO, VENTO VENTANIA, COMETA HUMANO, SOMBRA D’ÁGUA e outros que não lembro agora...

04 – Só isso?
Como assim?! Ah.... Elaborei há uns dez anos atrás um Catálogo de Heróis Brasileiros, que hoje atualizei e fiz uma versão impressa pela Universo Editora. É um projeto de dez volumes com pelo menos uns 400 personagens do quadrinho brasileiro e participação de vários artistas do cenário independente.

05 – E...?
Se publiquei alguma coisa? Publico no momento o Projeto Encontros, com O CATALOGADOR e vários personagens mais antigos do nosso Quadrinho e neste, tenho como parceiros os desenhistas Rom Freire e Zilson Costa. Segue em andamento um projeto com O SETE ESTRELAS, desenhado por Alex Genaro e Rom Freire com roteiros de Rodrigo Marcondes. EXÚ fiz também com a arte de Bruno Lima e roteiro de Leonardo Santana, mas este, ainda na prancheta...

06 – Quantas perguntas eram para fazer mesmo?
Sei não..., mas está bom, né?

UMA BREVE ENTREVISTA EU COMIGO MESMO - LAUDO FERREIRA JR. - MÚLTIPLO 10

O desenhista e roteirista de quadrinhos Laudo Ferreira numa conversa muito franca consigo mesmo.

01-Se formos esquecer essa coisa de me auto entrevistar, eu entrevistando eu mesmo, como é isso para você?
À princípio quando o André Carim, editor do “Múltiplo” me chamou para essa empreitada, sugerindo esse tipo de entrevista, fui relutante, confesso até nem ter gostado muito da ideia, pois pode soar, ou talvez seja mesmo, algo egocêntrico. Mas, como sempre me seduzo por certos desafios, acabei gerando uma interessante logística na minha cabeça para poder fazer essa entrevista.
Enfim, espero que para você também esteja sendo algo no mínimo interessante.


02-Existiria alguma possibilidade de você ser uma pessoa diferente do que é e sempre foi, tanto na arte, quanto na vida?
Há uma infinidade de possibilidades em infinitas dimen-sões. Talvez existam vários Laudos coexistindo agora em outros campos, sendo coisas diferentes do que eu sou. É permitido isso. Quem sabe... um funcionário de banco... um milionário... um empresário bem-sucedido... um men-digo... um homossexual... um travesti... um outro tipo de pai de família... um assassino... muitas possibilidades...
Nessa dimensão, nessa vida, esse Laudo que muitos conhecem é o que optei em ser e ponto final. Assumi muitas coisas, que talvez na ocasião que tenha feito essa escolha, nem mensurasse o tamanho, mas enfim, há algo no meu DNA que é a bússola do que sou e mesmo que mudasse radicalmente meu jeito de ser, pensar, viver e fazer minha arte, esse “algo” ainda estaria lá, então, não tem jeito. Como cantou lindamente Drummond em “Poema de sete faces”: quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra disse – Vai Carlos, vai ser gauche na vida!


03-Vamos falar de arte agora? Da sua arte.... Qual é a busca dela? Existe, aliás, busca na sua arte?
Talvez. Há alguns anos atrás. Talvez lá no início. Hoje e já há algum tempo, não. Dispensei “rótulos”, estilos, linhas. Buscar que me identifiquem com esse ou aquele gênero. Liberdade absoluta. Faço o que quero e o que meu coração acha no mínimo interessante.

04- Fazer uma obra para refletir ou divertir?
Tudo misturado. Mas, antes de qualquer coisa é preciso que o leitor se identifique com a sua obra.

05- Como está hoje, 2017, o artista e a pessoa que ficou treze anos escrevendo e desenhando uma História em Quadrinhos de quase quinhentas páginas chama “Yeshuah”?
Primeiramente treze anos mais velho. Hoje um pouco mais, pois comecei a desenhar em dois mil e terminei em dois mil e treze. Maduro em certas coisas, penso isso. Sem um pingo de preocupação sobre esse tempo todo vivido. A experiência tem que se misturar ao seu organismo, a sua mente. Deixá-la lá atrás e viver no que ela gerou, mas hoje em dia. Sobre meu profundo amor a esse trabalho produ-zido, todos que conhecem meu trabalho, sabem disso. Ele é único e sempre será, porém, vamos adiante.

06-Há limites no universo de seus quadrinhos? Erotismo, espiritualidade...
Não existem limites. Tudo pode se misturar, se for o caso. E se misturam. Nunca tive esse pensamento, esse tipo pu-dico e ditador de censurar, algo como “isso não pode naquilo”. Claro, existem certas questões que à princípio não se encaixam, mas em um segundo até que sim. Essas duas linhas de HQ’s, a mim são interessantes, atiçam minha curiosidade e minha libido. Não sou falso ou iludido com elas, então me entrego inteiro e esses dois gêneros acabam ficando quase que semelhantes para mim.

07- E por que desses dois gêneros serem pertinentes em seus quadrinhos?
Já cheguei a teorizar sobre, pensando em alguns trabalhos feitos. Talvez pela dualidade, embora como disse anteriormente, essa dualidade em mim transite normalmente. Pelo lado terra do sexo e o lado “céu” do espiritual e ao mesmo tempo, o sentido inverso. Por serem dois elementos que até historicamente falando seduzem o ser humano. Pelos excessos tanto no profano, quanto no sagrado. Pelo mistério de ambos. Enfim, existe uma infinidade de coisas que se pode pontuar, por isso acaba sendo indecifrável, digamos assim e justamente por isso, também, que parei de me questionar, simplesmente aceito como algo inerente em meu trabalho, até o presente momento, claro. Amanhã, de repente, tudo pode mudar, e essa liberdade que é importante.

08- Diante de uma resposta como essa, posso afirmar que você é um autor sem estilo definido?
Dentro de uma teórica, sim. Fiel a mim, dentro da minha perspectiva. E dentro de um plano maior: isso importa?

09- Tianinha... Meia-Lua... David Escarlate... Jambalaya... Zé do Caixão... o assassino da minissérie “Depois da meia-noite”... Jesus... Qual destes personagens que você traba-lhou e trabalha ainda que mais te cativa ou cativou?
Cada um tem seu valor dentro da época que foi feito. Cada um teve um lado meu, como artista e pessoa, que mais foi mexido. Todos me cativam ainda.

10-Repetiria esse tipo de experiência como essa entrevis-ta?
Sim e Não. Não, porque já a fizemos agora e está bom, né? Sim, porque no final das contas, fazemos isso a toda hora, todo instante, não é?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

ADRIANA, A AGENTE LARANJA - ESPECIAL - AGOSTO 2017

Foram meses de contatos com outros artistas, garimpando colaboradores dispostos a emprestar um pouco do seu talento para essa edição especial... Demorou mas saiu... Adriana, a Agente Laranja, um fanzine especial somente com o universo da personagem, ilustrações e HQs produzidas em co-parceria com outros autores... uma experimentação gostosa e que irá prender a sua atenção neste e nos próximos que, com certeza, virão... divirta-se, comente e faça parte dessa aventura inédita!!!

Adriana, A Agente Laranja - Especial by André Carim on Scribd



quinta-feira, 27 de julho de 2017

MÚLTIPLO 10 - AGOSTO DE 2017

Fanzine Múltiplo 10 - Muita HQ, artigos, entrevistas, novidades, apresentação de novas personagens e o espaço do quadrinho nacional sempre em destaque. Venha fazer parte dessa história, colabore, divulgue, comente, distribua os PDF's dos fanzines que compõem o projeto "MÚLTIPLO"!!!

BAIXE AQUI O SEU PDF E ADQUIRA O IMPRESSO NO CLUBE DE AUTORES!!!


MÚLTIPLO 10 - Agosto de 2017 by André Carim on Scribd

金 KIN: A garota fantasma da Liberdade! - Fábio Vieira - Studio Magenta


Gostaríamos de convidá-lo a conhecer nosso mais novo projeto que foi submetido ao financiamento coletivo pelo Catarse: 金 KIN: A garota fantasma da Liberdade!

No coração vibrante da cidade de São Paulo, existe uma lenda urbana: a garota fantasma da Liberdade, como as pessoas a chamam, entre sussurros. Ninguém sabe se ela existe de verdade, mas, ocasionalmente, no bairro japonês, ela é vista durante as madrugadas, sempre no escuro, correndo sobre a borda do viaduto ou empoleirada sobre um dos postes em formato de lanterna.

Essa é a premissa de 金 KIN, um mangá de 80 páginas com roteiro de G. Profeta (autor de Melissa em Ellipsia) e arte de Fabio Vieira, que narra a jornada da justiceira no centro da cidade de São Paulo, abordando questões como justiça, escolhas e consequências.

Encaminhamos em anexo um breve release e algumas imagens para que você entre em contato com esse projeto! A campanha começou dia 17 de Julho (www.catarse.me/kin) e estamos em busca de parceiros que possam nos ajudar com a divulgação do material.

Ficamos à disposição para maiores informações.
Muito obrigado!

Atenciosamente,
Fábio Vieira




Uma justiceira de camisola no centro de São Paulo:

A HQ KIN já está em pré-venda até 14 de setembro de 2017

Em KIN, G. Profeta e Fabio Vieira usam quadrinhos para tratar do que existe por trás de uma lenda urbana e abordar questões como justiça, escolhas e consequências

No coração vibrante da cidade de São Paulo, existe uma lenda urbana: a garota fantasma da Liberdade, como as pessoas a chamam, entre sussurros. Ninguém sabe se ela existe de verdade, mas, ocasionalmente, no bairro japonês, ela é vista durante as madrugadas, sempre no escuro, correndo sobre a borda do viaduto ou empoleirada sobre um dos postes em formato de lanterna.

Essa é a premissa de KIN, uma HQ (história em quadrinhos) que já está em pré-venda por meio da plataforma Catarse de financiamento coletivo (www.catarse.me), até 14 de setembro de 2017. Em KIN, a ideia é se debruçar sobre o componente humano que existe por trás de uma lenda urbana.

O roteiro é assinado pelo sorocabano G. Profeta, jornalista e Mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas. KIN é a sua segunda história em quadrinhos – a primeira, Melissa em Ellipsia, também foi financiada coletivamente na plataforma Catarse em 2016. Já a arte leva a assinatura do ilustrador Fabio Vieira, em cujo portfólio constam exposições no Brasil, na Itália e nos Estados Unidos, além da edição dos quadrinhos O Peso da Água, Lucy in the Sky e A Rainha Pirata, todos viabilizados por financiamento coletivo.

O modelo de financiamento, segundo os autores, foi escolhido por possibilitar total controle sobre o desenvolvimento editorial da HQ, do roteiro à impressão. “A publicação por crowdfunding tem se provado uma alternativa à editoração tradicional, principalmente por aproximar o público de novos artistas independentes, geralmente mais dispostos à experimentação”, explicam.

“Esse é o caso de KIN, cuja narrativa é bastante experimental”, afirma o roteirista. “Um dos pontos com os quais brincamos bastante é o próprio cenário urbano, que funciona como um personagem. Toda a história se dá no centro de São Paulo: no beco da Liberdade, na Catedral da Sé, na Avenida Paulista... Por isso nós demos atenção particular ao

desenvolvimento desses cenários, do roteiro à arte, para que o leitor local pudesse se sentir dentro da história. Nós, como consumidores, estamos saturados de narrativas que se passam em Nova Iorque ou em Tóquio, por exemplo. Em KIN, nós queremos contar uma história paulistana, por assim dizer – ainda que venha naturalmente carregada de inspiração japonesa, seja pelo bairro da Liberdade ou pelo próprio estilo artístico, conduzido pelo Fabio com maestria.”

“Para KIN, eu busquei referências no realismo do mestre Takehiko Inoue, autor de Vagabond, e nos retratos da vida urbana de Scott McCloud, em O Escultor”, destaca Fabio, que acumula anos de estudo e prática na arte do mangá. Sua grande preocupação nesse projeto foi respeitar a tradição do shodo e do sumi-e, técnicas tradicionais de caligrafia e desenho com pincel. Por isso, grande parte da arte-final de KIN será conduzida com os velhos nanquim e pincel. Além dessas, outras influências visuais incluem os trabalhos do estúdio CLAMP (xxxHolic, Gate7) e de Tite Kubo (Bleach).

“O importante é que o traço revele a intensidade do sentimento”, diz Fabio. “KIN é uma história sobre justiça, escolhas e consequências, mas, acima de tudo, é uma história sobre sentimento. E isso conversa com qualquer ser humano. Sofrimento, ódio, tristeza... Aceitar e conviver com tudo isso é uma grande lição. Em nossas vidas, fazemos isso o tempo todo, com ou sem uma katana nas mãos.”

A HQ deverá estar disponível até o começo de 2018, se o projeto de financiamento coletivo for bem-sucedido. A primeira edição será uma publicação do Studio Magenta, uma iniciativa da Anima Academia de Arte, há 10 anos no mercado de Campinas, que tem como objetivo publicar e divulgar trabalhos artísticos de profissionais e amadores.

Como comprar Entre na página www.catarse.me/kin até o dia 14 de setembro. Faça um breve login (que pode se dar através do Facebook). Clique em “Apoiar este projeto” e escolha a opção que mais lhe agrada (cópia digital em pdf, cópia impressa ou cópia impressa com brindes extras). O pagamento pode ser feito com cartão de crédito ou boleto bancário, em até 3 vezes sem juros, dependendo da opção escolhida.

Página no Facebook: https://www.facebook.com/studiomagenta.art/

quarta-feira, 26 de julho de 2017

FRONTEIRAS DO ALÉM - CARLOS HENRY

FRONTEIRAS DO ALÉM - com Carlos Henry

Não é de hoje que venho dizendo que as HQs nacionais ganharam uma qualidade há muito não vista por essas paragens... a produção vem crescendo e trazendo jovens talentos e reforçando o talento de autores nacionais...
Com Carlos Henry não tem sido diferente, colaborador de diversos alternativos nacionais, grande divulgador das nossas artes, ele traz uma edição de terror como aqueles belos formatinhos antigos, com ótimas ilustrações, desenhos de primeira e o tema que arrebatou fãs por anos a fio: o TERROR! Carlos nos apresenta uma revista com 4 grandes HQs de terror, com destaque para o seu lobisomen, em duas HQs... capas em papel brilhante com belas ilustrações e miolo em tons de preto e branco com ótimos quadrinhos no traço já conhecido do nosso amigo Carlos Henry... Encontro Macabro e A Senha num terror mais marcante, complementam esta bela edição, definitivamente um exemplar que vale a pena ter na coleção pessoal... quem quiser adquirir a revista entrar em contato com o autor através do e-mail: chsstudio@gmail.com ou aqui no perfil dele no Facebook.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

UM MILÊNIO PARA AMANHECER - ANNE VENDITTI

"Ele está na polícia, mas não é policial...
Por que o filho de uma prostituta inglesa ingressa na polícia americana para trabalhar para o homem que o molestou?
Ao buscar exorcizar fantasmas do passado, Marvin DeMoore se vê preso numa rede de intrigas perigosas envolvendo um poderoso magnata da indústria tecnológica e sua filha fugitiva"


Livro de Anne Venditti disponível para compra no link: https://lojavirtual.giostrieditora.com.br/index.php?route=product/product&product_id=10724&search=Um+mil%C3%AAnio+para+amanhecer

Marvin DeMoore foi levado à Califórnia por seu padrinho aos 2 anos de idade e levado de volta à Inglaterra aos 5, sob circunstâncias desconhecidas. Filho de uma prostituta inglesa, é um homem de personalidade instável, ateu, amante de Shakespeare e pintura. Retorna à Califórnia aos 18 anos, atrás do chefe de polícia McMegory, cliente de sua mãe, que o molestou do 5 aos 15 anos, com quem começa a trabalhar depois de adulto, gerando suspeitas. Na virada do milênio, vê-se engolido por suspeitas de autoria de uma série de crimes que aparentemente não cometeu, os quais têm início após conhecer Jaak Jean, filha do magnata Eliot Lewis, dono da empresa de tecnologia Microtec. Tendo paralelamente ao cargo de investigador de polícia um trabalho sobre o qual ninguém sabe de muita coisa, precisa manter a polícia longe de seu encalço a fim de preservar o segredo sobre suas atividades sigilosas, enquanto tenta administrar sua obsessão pela argentina Clara Pellegrini, sua amiga de infância.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

FANZINE ILUSTRADO 3 - CARICATURAS, CHARGES, CARTUNS E TIRAS - AGOSTO DE 2017

Hora da diversão, galera, um FANZINE ILUSTRADO recheado de bom humor, caricaturas, charges, tiras e cartuns, mas também uma edição recheada de homenagens, obras de arte e o talento do artista nacional... vem conferir o material...

Os artistas desta edição:

Isaac Tiago
Moisés
Ediel Ribeiro
Bira Dantas
Nei Lima
Julio Shimamoto
Márcio Apoca
Carlos Henrique Guabiras
Marcel Bartholo
Josi OM
Omar Viñole
Dalton
Laudo Ferreira Jr.
Edgard Guimarães

Fanzine Ilustrado 3 - Caricaturas, Charges, Cartuns e Tiras by André Carim on Scribd



terça-feira, 18 de julho de 2017

QUADRINHOS INDEPENDENTES 145 - QI - EDGARD GUIMARÃES

Fanzine bimestral de informações e quadrinhos. Maio/Junho de 2017. Editor: Edgard Guimarães, Rua Capitão Gomes, 168, CEP 37530-000, Brasópolis, MG. Fone (35) 3641.1657. E-mail: Edgard.faria.guimaraes@gmail.com. 40 páginas, formato 15x21, capa com detalhe colorido manualmente, miolo PB. Assinatura anual: R$ 25,00. Edição gratuita em PDF no site da Editora Marca de Fantasia.

O fanzine QI, um dos mais longevos fanzines em atividade – ao lado do Tchê, de Denilson Reis – segue imprescindível aos fãs de quadrinhos.

Estruturado no estudo dos quadrinhos, especialmente os clássicos da era de ouro e prata, também publica HQs curtas, cartuns e ilustrações, mas o destaque vai mesmo para a parte jornalística.

A página 3 sempre nos traz a história e biografia de um personagem dos quadrinhos, esmiuçando detalhes sobre sua trajetória editorial. Nesta edição, “O Morcego”, criação de Wilson Fernandes para a editora Roval, em 1972. Herói nitidamente calcado nos clássicos Batman (Bob Kane) e Fantasma (Lee Falk), teve apenas uma edição publicada, tornando esta revista uma preciosidade, um verdadeiro tesouro dos quadrinhos nacionais.

A seguir curiosidades sobre Mickey, de Walt Disney (ou melhor, Floyd Gottfredson). Você sabe quando houve a mudança no desenho dos olhos do personagem, precisamente? Eu também não. Mais um mistério desvendado pelo arqueólogo Edgard. Também é mostrada uma censura nas histórias de Steve Canyon, de Milton Caniff.

Ainda com texto do editor, “Mistura de Estilos” falando sobre estas combinações inusitadas, já vistas em HQs Disney e até mesmo em uma aventura de Zé Carioca de Renato Canini, o maior de todos os Zés Cariocas em minha opinião e de muitos. Quando o desenho acadêmico encontra o cartunesco, cita também a participação de Rodolfo Zalla em uma situação de mistura de estilos de seu “Zorro”.

Lio Guerra Bocorny escreve sobre a revista de “Mazzaropi”. Hoje praticamente esquecido, Amacio Mazzaropi teve papel importantíssimo na cultura brasileira, apresentando o ‘caipira’ típico das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Brasilidade perdida nos dias de hoje, recuperar a memória nacional é outro papel relevante prestado por QI e seus colaboradores.

“A Estranha”, por E. Figueiredo, é uma crônica sobre um dos males do século, que é a impessoalidade e a solidão. Apesar de não falar diretamente sobre HQ, merece reflexão por sua pertinência.

“Fórum”, a seção de cartas e mensagens, é mais do que isso. Simplesmente uma das seções mais importantes do zine, sempre com notícias quentinhas e informações interessantes sobre quadrinhos. Algumas: Luigi Rocco comenta o lançamento dos álbuns de “Pita” e “Piparoti”, personagens de Daniel Azulay (a turma com mais de 40 vai lembrar da Turma do Lambe-Lambe); Shimamoto fala sobre sua participação na revista “Clássicos do Faroeste”, com a adaptação do filme “Matar ou Morrer” pela editora Outubro; José Augusto Pires fala sobre sua edição definitiva de “Terry and the Pirates”; Alex Sampaio comenta o mercado de quadrinhos europeus atualmente, incluindo os álbuns mais vendidos; finalmente, entre tantos destaques, Luiz Antonio Sampaio, verdadeira enciclopédia sobre o assunto comics, dá mais um show de informações e curiosidades sobre o assunto.

A Coluna “Mantendo Contato” de Worney (WAZ), espaço de palpitologia segundo seu articulista, traz sempre assuntos relevantes e desta vez os eleitos são: a nova revista editada pelo ‘papa’ Franco de Rosa, “Operação Jovem Guarda”, de Rubens Cordeiro; a volta do título de “Dylan Dog”, pela editora gaúcha Lorentz; e o lançamento de “Contos do Absurdo”, álbum de HQ da revista digital homônima capitaneada por Daniel Verdi e equipe, pela editora Discovery.

“Edições Independentes”, traz a ficha completa de dezenas de publicações alternativas, com reprodução de capas. Guia seguro para conhecer o panorama dos fanzines produzidos no período, que aumentou neste bimestre. Tem coisas bem interessantes para os curtidores dos fanzines.

Na parte dos quadrinhos e cartuns, destaco as participações de Eduardo Marcondes Guimarães, a brincadeira divertida de Chagas Lima com as “Lendas Brasileiras”, e o cartum da contracapa, de Edgard, sempre com textos inteligentes.

O encarte é mais um presente aos assinantes fiéis da publicação. Uma belíssima HQ do autor português José Pires, “Asas da Coragem”, com capa colorida e miolo PB, que conta a história da primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Inicialmente publicada nos números 18 a 20 de revista “Seleções BD” (2ª Série) entre abril e junho de 2000.

Sempre surpreendente, e mantendo o sucesso do ‘formato’, QI é sempre uma grande diversão, e é isso que importa. Que perdure por muitos e muitos anos.

RESENHA PUBLICA NO SITE DA ATOMIC EDITORA, FEITA POR MARCOS FREITAS em: http://atomiceditora.blogspot.com.br/2017/07/qi-145.html

domingo, 16 de julho de 2017

"THE FEW AND CURSED" - Série de FELIPE CAGNO & FABIANO NEVES

“SÉRIE EM QUADRINHOS QUE MISTURA VELHO OESTE COM SOBRENATURAL GANHA EXPANSÃO COM GRANDES NOMES DOS QUADRINHOS.”



“The Few and Cursed” investe em coletânea de curtas histórias para expandir seu universo pós-apocalíptico.

14 de Julho de 2017

The Few and Cursed, série criada por Felipe Cagno & Fabiano Neves, aposta mais uma vez no financiamento coletivo do Catarse para expandir seu universo e introduzir novos personagens. Série que começou no final de 2015 com o arco em seis partes Os Corvos de Mana’Olana apresenta uma coletânea de curtas histórias sob o título “As Crônicas de The Few and Cursed”.

https://www.catarse.me/as_cronicas

Com nomes de peso na produção da HQ como Luke Ross, José Luis, Pedro Mauro, Andrew Dalhouse, Adriano Di Benedetto, Sam Hart, Felipe Watanabe, Geraldo Borges e outros, o roteirista e editor do projeto Felipe Cagno planeja contar sete histórias de sete páginas cada que se passam no mundo sem água de The Few and Cursed:

“Quando terminei o roteiro da terceira edição da série principal, Os Corvos de Mana’Olana, percebi que tinha criado alguns personagens interessantes que eu mesmo queria conhecer melhor. Além disso, tem todo um mundo além da Ruiva que também sofreu com o sumiço de 90% da água no planeta da noite pro dia. Eu não queria esperar a conclusão dos Corvos para só então explorar mais desse mundo e como já tive duas experiências bem positivas com antologias antes, surgiu a ideia das Crônicas.” – compartilha Cagno

No final de 2015 The Few and Cursed introduziu a misteriosa personagem conhecida apenas como Ruiva na caça pelos Corvos de Mana’olana e já teve duas edições financiadas no Brasil e outras três financiadas internacionalmente no Kickstarter.

“O plano sempre foi produzir seis edições através do financiamento coletivo, tanto no Brasil quanto nos EUA, e com o apoio direto dos fãs temos algumas possibilidades editoriais que não teríamos de outra maneira como a Galeria de Artistas Convidados presente em cada revista. É gratificante demais para nós e para os leitores ver alguns nomes importantes das HQs como Jack Herbert, Eduardo Pansica, Ryan Ottley, Mirka Andolfo, Adriano Batista, e Yanick Paquette reinterpretando a Ruiva” – diz Neves

Felipe Cagno já teve mais de 15 campanhas de financiamento coletivo no Catarse e Kickstarter e quem apoiou qualquer trabalho dele sabe que pode esperar grandes surpresas como sobrecapa/pôster em gloss brilhante, imãs exclusivos e até cards colecionáveis. Tudo isso a custo zero para o apoiador através das Metas Estendidas:

“É só através do sucesso de um projeto no Catarse e indo além da meta inicial que podemos investir o excedente em produtos exclusivos e colecionáveis. Essa é a vantagem de se apostar numa pré-venda assim.” – revela Cagno



Antologia continua o cenário pós-apocalíptico onde mais de 90% da água no planeta simplesmente desapareceu da noite para o dia há mais de setenta anos no ano de 1840. A humanidade já se acostumou com a escassez, mas a falta de água estagnou qualquer progresso e a civilização continuou presa no século XIX.

Apelando para o sobrenatural e o impossível para sobreviver, homens e mulheres começam a desenterrar antigas maldições e os portões do inferno se abrem. As histórias das Crônicas irão explorar outras regiões do mundo como a Pérsia, Austrália e Egito além de introduzirem novos personagens que irão integrar a série principal Os Corvos de Mana’Olana.

As Crônicas de The Few and Cursed terá no mínimo 64 páginas no tamanho padrão americano e a campanha fica no ar até dia 07/08 apenas com pacotes de recompensas começando em R$30.

Link para a campanha: https://www.catarse.me/as_cronicas

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Entrevista com ANDRÉ DAHMER - Por RAFAEL SPACA - REVISTA BRAVO

“Arte não serve para dar status”
Na série com grandes quadrinistas brasileiros, Rafael Spaca entrevista André Dahmer. “Sou uma pessoa bem-humorada, mas não um humorista”



Por Rafael Spaca
Sua incursão às artes não é nada romântica. Você começou a desenhar ainda criança, uma das maneiras que seus pais encontraram para tentar melhorar seu problema de déficit de atenção e hiperatividade. Você dava tanto trabalho assim pra te apresentarem o desenho?
Eu era aquele menino que queimava e quebrava brinquedos, que não conseguia ficar sentado na cadeira em sala de aula. Tive muitas dificuldades de convivência na escola, até encontrar o desenho na oficina de Maria Teresa Vieira. Essa senhora, uma alagoana, foi muito importante na minha formação. Eu viria a retribuir tudo que ela me deu 20 anos mais tarde, lecionando Modelo Vivo na mesma instituição. Uma maneira de devolver os valores e ensinamentos que recebi: tratar do fazer artístico com amor e atenção; cuidar do dom para nunca se perder no caminho; respeitar a Arte como forma de existência menos conturbada. Devo muito a ela.

Você era péssimo aluno, repetiu de ano duas vezes. O que acontece que muitos, como você, lá na frente conseguem sucesso mesmo não tendo sucesso na escola?
Sucesso na vida, para mim, é falecer dormindo. Todo resto é bobagem. A carreira me deu possibilidade de sobreviver e ter uma família, é bem verdade. Porém, a Arte ultrapassa a questão do dinheiro. É uma maneira de sobreviver ao mundo interior, antes mesmo do mundo exterior. A Arte é um caminho para todos, diferentemente do que pensa o senso comum. O que falta é uma cultura de Arte em uma sociedade voltada para a técnica e “resultados”.

E por que esses péssimos alunos vão sempre pra área de humanas e não de exatas?
Não sei se isso é verdade. Sei que a maioria dos “alunos-problemas” não são entendidos pelas instituições de ensino tradicionais. Entendidos em suas demandas individuais, porque somos diferentes uns dos outros. Não é possível lecionar para 30, 40 crianças usando um padrão. É preciso respeitar e entender as nuances de personalidade de cada um. Ensinar é reconhecer as diferenças de cada um.



Pra quem foi desenganado, ter um quadrinho como conteúdo de referência para prova do Enem (em 2011), é uma das ironias da vida, não acha?
É, pode ser. Fico feliz que meu trabalho seja visto por adolescentes que nem eram nascidos quando comecei a trabalhar com quadrinhos. É um indício de que ainda estou fazendo algo relevante e atual. De qualquer forma, não guardo qualquer mágoa. Tudo que passei foi importante na minha formação como artista. Os erros são tão importantes quanto os acertos, na medida em que ambos ensinam e apontam novos caminhos. O erro ensina muito, não deveria ser desmerecido ou amaldiçoado.

Afinal das contas, depois que começou a desenhar, melhorou da hiperatividade e déficit de atenção?
Não tomo remédios, não havia drogas desse tipo quando eu era criança. Tenho alguma dificuldade de concentração, penso muitas coisas ao mesmo tempo. Porém, aprendi a “domesticar” o problema. Não me sinto menos capacitado para fazer nenhuma tarefa cotidiana, mesmo as que exigem muita concentração. Jogo xadrez desde os 15 anos, uma prova de que posso fazer tarefas que exigem muita concentração.

Na Belas Artes, na UFRJ, você não se adaptou a todas aquelas questões teóricas. Era muito rigoroso lá? O artista tem que ser livre e não enquadrado, não acha?
Acho que os fundamentos da técnica são importantes para qualquer artista, mas não são as únicas coisas que importam na formação. Grandes artistas foram recusados nas escolas de Belas Artes: Picasso e Van Gogh, apenas para citar dois exemplos. A questão é que a Belas Artes é engessada demais, muito voltada para o rigor técnico de representação. É provável que esta tenha “estragado” muitos meninos por trabalhar mais o rigor técnico do que a intuição, por exemplo.



Você louva não ter nenhuma referência, inspiração ou mestre. Isso te fez ser original?
Claro que tive mestres no começo, mas logo os abandonei. Não é bom cultivar ídolos em campo algum do conhecimento. Achar o próprio e original caminho é a única coisa que importa. Todo o resto é cópia ou reverência, o que não nos faz artistas. É preciso, em algum momento do caminho, fazer o que chamo de “abandono do mestre”.

Ziraldo te definiu como “cartunista machadiano”. Sabe o que ele quis dizer com isso?
Acho que ele se referia à forma de narrativa do meu trabalho. Sou muito agradecido a ele. Ziraldo me deu o primeiro emprego em mídia impressa, quando foi editor do Caderno B do extinto Jornal do Brasil. Eu tinha apenas 25 anos, nunca imaginei que trabalharia com quadrinhos por tanto tempo, fazendo dele minha profissão.

Não é preciso ler quadrinhos, conhecer pintura ou fotografia, para se tornar um desenhista?
É preciso, claro. Conhecimento nunca é demais. O problema é ficar preso às linguagens e caminhos já traçados anteriormente. O artista precisa inventar, não copiar. E invenção pressupõe liberdade e coragem para caminhar sozinho, sem guia. Depois de conhecer o que os outros fizeram antes, é preciso estar pronto para inventar o que não foi feito ainda.



Pra que serve a técnica?
A técnica é uma amiga do artista. Ela ajuda enquanto não faz do artista um mero repetidor. É preciso atenção com isso; a técnica pode manter um jovem artista preso a um sistema duro de pura representação e repetição, arrastando-o para longe do universo de invenção. Não existe fazer artístico seguro. Se você está no conforto da segurança, não está fazendo Arte.

Suas tirinhas, charges, cartuns sempre apresentam críticas com sarcasmo, escárnio, humor negro corrosivo e até autodepreciativo. Considera-se uma pessoa bem-humorada ou todo o seu trabalho reflete quem é você?
Me considero uma pessoa bem-humorada, mas não sou um humorista. Sou um cartunista, o que é muito diferente. Não sou uma pessoa engraçada, vamos dizer assim. Também não trabalho simplesmente para divertir pessoas: minha abordagem é outra, diferente da do palhaço de circo ou do humorista de auditório. Minha intenção nem sempre é a de provocar risos com o meu trabalho.

O alienado é sempre mais feliz do que o bem informado?
Talvez o alienado seja mais feliz, mas é uma forma de conforto pequena. A gente está no mundo para viver de verdade, por mais triste ou sem sentido que a verdade possa ser. A vida é muito curta para nos perdermos com religião ou crenças pouco prováveis. Acho que a existência é mesmo algo finito e sem sentido, infelizmente. Quanto antes nós aceitamos isso, mais preciosa se torna a vida.



Suas tirinhas já incomodaram muita gente, tanto é que chegou a ser ameaçado de agressão física por causa de algumas delas. Isso não te assusta?
Não, não me assusta pessoalmente. Me assusta a violência acima do debate de ideias. Isso sim me causa espanto. A violência é inerente à condição humana, mas também acho que somos capazes de coisas maiores. É só questão de tempo e vontade.

Hoje o receio de todo artista, além destas ameaças, é a cultura do processo judicial. Acredita que ele representa, de certa maneira, o que foi o censor de ontem?
Em alguns casos, é uma forma de cerceamento da liberdade de expressão, sim. Porém, se você tem medo de processos ao fazer cartuns, certamente está na área errada.

O politicamente correto vai matar a arte? Como encara esse patrulhamento de todas as categorias e segmentos da sociedade que se incomodam com quase tudo que se faz e é publicado?
Acredito que boa parte do mau humor com certas piadas tem algum fundamento. Não é possível que, em nome do humor, você ataque grupos historicamente oprimidos, por exemplo. Muito pelo contrário: acho que o humor pode e deve servir aos oprimidos e marginalizados. Para mim, o grande mérito do humor não é o riso, mas a denúncia da realidade.



Acha que daqui a pouco vai precisar desenhar tendo um advogado ou seu lado para saber se pode ou não fazer referência a um determinado assunto?
Não acho. Advogados ganham dinheiro com a discórdia. Meu trabalho não é feito para humilhar ninguém.

Você se diz uma pessoa solitária. Isso é bom ou ruim? O trabalho, sendo solitário, rende mais?
Não se pode fazer nada sem a solidão, dizia Pablo Picasso. É muito verdadeiro, se você entende que a natureza do fazer artístico é o mundo interior. A solidão segue produzindo romances, quadros e peças de teatro. Isso é bom, porque os solitários são donos de um mundo interior muito vasto, o que pode causar grande sofrimento. Para essa gente, Arte é remédio.

Suas tiras saem na internet e no jornal. Qual é a sensação de vê-las publicadas nesses dois meios de comunicação?
Acho que estamos em uma fase transitória, mas o jornal impresso continuará a existir por muito tempo. Talvez com outro formato, tiragem e função. Mas, como meio de informação, não acabará tão cedo. Fico feliz que meu trabalho possa ser lido em jornal. É um público de mais idade, que nunca imaginei ter como leitor.



O jornal, por ser canônico, dá outro tipo de chancela quando é publicado um trabalho seu?
Deve dar, mas não estou atrás de chancela de ninguém. Se você precisa de reconhecimento do meio para ser artista, há algo errado aí. A Arte existe para libertar, não para dar status.

E quando sai em livro, que importância tem isso pra você?
Isso é diferente, porque fica um registro mais cuidadoso do caminho que fiz. As tiras se perdem na velocidade da rede e do jornal. O livro é uma maneira de compilar o material, de organizar seu trabalho para um melhor entendimento futuro.

Você nunca se acomodou com o sucesso. Mata personagens, termina séries e se renova constantemente. Isso é insegurança ou inquietude?
Não é uma fórmula, é como meu trabalho se desloca naturalmente. Mais uma vez, é importante dizer que sucesso é um lugar que já matou muitas produções artísticas maravilhosas. Não me coloco neste grupo, mesmo sabendo que tenho um trabalho público. O que me importa é ficar velho sem sentir vergonha das coisas que fiz. Sucesso algum vale isso.



Além de não ter apego aos personagens, você também não tem apego à profissão. Você disse que desenhar não é o mais importante na sua vida e que largaria a profissão para fazer o que gosta de fazer de verdade. Desenhar pra você é como lavar louça, ou seja, um trabalho como outro qualquer?
É um trabalho como outro qualquer, que pode trazer tanto prazer quanto se tornar um bom cozinheiro, marceneiro ou médico. O mérito do trabalho não está na renda, mas no prazer que ele lhe proporciona. É triste ver gente que trabalha por trabalhar, que acorda puto para ir ao trabalho. Eu não conseguiria viver assim.

Suspeita do que você realmente gostaria de fazer e que te deixaria feliz?
Sou feliz com o que faço, mas poderia fazer outras coisas. Gosto muito da matemática e ciências exatas em geral, mas não tenho a paciência e a abstração necessárias para a tarefa; é melhor jogar xadrez com os amigos. Também seria facilmente jardineiro, porque adoro plantas e biologia. Tenho cuidado de plantas e estudado sobre o assunto por duas décadas.

O que tem de belo e de ruim na arte no sentido stricto sensu da palavra.
Arte tem algo de perverso, que é o mercado da arte, que muitas vezes serve para lavar dinheiro sujo de corrupção, armas ou diamantes de sangue, por exemplo. Um artista deve estar ciente e questionar a função do seu trabalho. Não é bom que sua produção sirva de alimento para apostadores e bandidos em geral. Porém, isso às vezes foge ao controle do artista, na medida que seu trabalho é valorizado e passa de mão em mão, como qualquer mercadoria.



Das séries que já criou, qual considera sua grande obra e qual ficou aquém do que imaginava?
Não tenho predileção por esta ou aquela série. Sou um ser humano, erro mais do que acerto. Fiz coisas que hoje eu não faria, mas sofrer de arrependimento, nesse ponto, é muita vaidade.

Você tem bom retorno de vendas com seus originais e produtos inspirados em sua arte como camisetas e canecas?
Nada que me enriqueça. A loja paga a escola das minhas duas meninas, e sobra um tanto para o vinho, e só. Os jornais também pagam muito pouco. Se eu quisesse apenas acumular dinheiro, estaria vendendo cerveja ou açúcar, não é?

Muitos dos seus amigos ou colegas de profissão estão aproveitando o bom momento das séries e adaptando-as para a TV, especialmente a paga. Não pensa em oferecer os Malvados para alguma grande empresa?
Já me procuraram outras vezes, mas tenho medo de adaptações. Já fui pago para escrever roteiros, não vejo nada demais nisso, se houver liberdade total para trabalhar. Muitos colegas estão deixando os quadrinhos porque o dinheiro está no audiovisual. É uma pena, acho.



A animação está no seu horizonte?
É muito trabalhoso, envolve muita gente. Se fosse o caso, teria que ser feita com gente muito boa da área. Mas, como disse, tenho meus receios.

Você está fazendo um documentário a respeito de pessoas uniformizadas. Como surgiu essa ideia e em que estágio está este processo?
Já foi feito. É um curta, uma experimentação de linguagem. Tenho vontade de fazer trabalhos em cinema, principalmente documentários. Mas é trabalhoso e custoso, além de envolver muita burocracia. Com quadrinhos, nada disso acontece.

Como você se define?
Um cara que aprende fazendo e errando. Aquilo que costumam chamar de autodidata.



Quadrinho se faz por amor ou por dinheiro?
Pode ser feito por dinheiro, mas sempre com amor.

Tem muita gente boa fazendo quadrinho por aí?
Muita gente. Todo dia descubro alguém novo. Há meninas e meninos fazendo bons quadrinhos, o que me dá grande alegria.

O que é mais difícil, desenhar ou encontrar a linguagem para o desenho?
O desenho é natural, está em todos nós desde sempre. A prova disso é que todas as crianças do mundo gostam de desenhar (caso análogo ao da música). É uma pena que o sistema educacional nos retire este instrumento de saber e conforto tão cedo. Desenhar é uma maneira de organizar e limpar o inconsciente, como fazem os sonhos. Recomendo para todos o caderno e o violão. Fica mais fácil suportar a vida.

ENTREVISTA COM ANDRÉ DAHMER REALIZADA POR RAFAEL SPACA E PUBLICA NO SITE DA REVISTA BRAVO:
https://medium.com/revista-bravo/arte-n%C3%A3o-serve-para-dar-status-92b5002a9dc3