PRÊMIO JABUTI
Mais uma iniciativa positiva que visa mostrar que as HQs não devem ser marginalizadas e sim serem consideradas uma categoria literária! Mas... e você, o que achou dessa iniciativa e o que ela representa para os Quadrinhos Nacionais? Qual(is) categoria(s) devem ser contempladas? O Múltiplo quer saber a sua opinião... Opine através do e-mail: andrecarim@outlook.com...
http://www.universohq.com/noticias/premio-jabuti-cria-categoria-para-historias-em-quadrinhos/
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Entrevista com MIKE DEODATO - MÚLTIPLO 7 - MAIO DE 2017
Como se tornou quadrinista? Quem o influenciou e lhe ensinou a desenhar?
Mike Deodato: Meu pai, Deodato Borges, criador do Flama, primeiro herói em quadrinhos do Nordeste, em 1963.
Quais os trabalhos que influenciaram seu modo de desenhar?
Mike Deodato: Spirit, Chandler, Heavy Metal Magazine, Batman - Ano 1, Cinco por Infinitus.
Nos fale um pouco de sua primeira revista indepen-dente e do seu personagem Ninja.
Mike Deodato: Foi criada em 1980, eu tinha só 17 anos. O nome era Revista HQ. O personagem, O Ninja, foi criação minha e de meu amigo José Augusto. Era um ninja que passara para o lado do bem, deixando de ser um assassino de aluguel para defender quem precisasse.
O que seu pai representou para você profissionalmente? Ele também era quadrinista?
Mike Deodato: Nós trabalhamos como uma dupla durante muitos anos. Foi aonde aprendi muito sobre narrativa. Ele escrevia os roteiros em forma de pequenos sketchesdas, páginas com os balões e tudo. Receber os roteiros assim era uma grande aula.Como foi sua vida no mundo dos fanzines e dos quadrinhos? Poderia falar de cada fase?
Mike Deodato: O tempo dos fanzines era um período de descoberta, aprendizado. Não dava para viver deles, mas era muito gratificante de qualquer maneira. Hoje em dia eu tenho a mesma alegria, e ainda por cima, tenho o reconhecimento e ganho o suficiente para viver do que faço.
Você é da Paraíba, não é? O que foi fazer “A História da Paraíba” em quadrinhos?
Mike Deodato: Foi bem trabalhoso. O prazo era curto e havia muita pesquisa. O resultado foi bom. Foi bacana ter uma revista distribuída para escolas públicas e poder alcançar um público diferente.
Trabalhou em alguma editora nacional?
Mike Deodato: Algumas: Icea, Vecchi, Maciota, Abril, e outras que não lembro.Em quais países publicou seus trabalhos?
Mike Deodato: A Marvel e DC estão no mundo todo, então...
A “Mulher Maravilha” foi o seu reconhecimento no mercado americano? Fale um pouco dessa fase.
Mike Deodato: A revista, segundo me disseram na época, teve suas vendas triplicadas depois de minha chegada. Eram os anos 90 então tudo era muito exagerado: violência, sensualidade, roupas. Minha fase refletiu tudo isso.
Hoje você tem contrato com a Marvel, não é mesmo? Qual (is) personagem (ns) você desenha hoje para a Marvel?
Mike Deodato: Old Man Logan.
Quais personagens da Marvel você desenhou ao longo desse tempo?
Mike Deodato: Estou por lá desde 1995, então posso dizer que desenhei quase todos.
Como foi produzir para a revista mensal da Elektra?
Mike Deodato: Trabalhei com dois escritores com estilos distintos: Milligan, que focava mais nos relacionamentos e Hama, cujo foco era na ação. Foi uma época divertida.
No Brasil, quais trabalhos marcaram a sua carreira?
Mike Deodato: 3000 Anos Depois, A Arte Cartum de Mike Deodato e Quadros.
O seu traço tem influência de quais quadrinistas internacionais/nacionais?
Mike Deodato: Muitos, mas os principais autores foram Eisner, Neal Adams, Frazetta, Steranko, Ziraldo, Mozart Couto.
O seu traço tem um certo domínio do claro-escuro, como se dá isso?
Mike Deodato: É uma preferência minha, influência de Will Eisner.
Pelo que já ouvi falar do seu trabalho, você domina tanto o Preto e Branco quanto o Colorido. Tem preferência por algum deles? Qual o estilo que marca a sua carreira de desenhista?
Mike Deodato: O preto e branco, definitivamente, tanto por preferência quanto por ser marcante em minha carreira.
Nos conte sobre os seus quadrinhos autorais.
Mike Deodato: O principal deles se chama Quadros, publicado pela Editora Mino. São crônicas em quadrinhos aonde falo de tudo um pouco, e experimento graficamente como em nenhuma obra minha anterior.
Como era acompanhar os trabalhos de seu pai?
Mike Deodato: Um privilégio, um prazer vê-lo criar personagens e mundos do nada. Ele era genial.
Quando começou efetivamente a desenhar? Quais os trabalhos iniciais?
Mike Deodato: Comecei aos treze, mas publiquei somente aos quinze em um jornal local. Meu primeiro trabalho em quadrinhos pago foi aos 22.
Realizou parcerias com seu pai? Quais e como nasceram esses projetos?
Mike Deodato: Muitos para listar aqui, mas os mais importantes foram 3000 Anos Depois, um álbum no qual meu estilo atual já começava a tomar forma e Verso-reverso, que foi nosso primeiro trabalho publicado por uma grande editora, a Editora Abril.
O que você pode nos dizer sobre a reedição no Brasil de 3000 Anos Depois?
Por que você incluiu duas páginas inéditas nesse tra-balho?
Mike Deodato: Enquanto eu participava da coletânea de imagens e histórias, e depois de dar várias entrevistas sobre a época, me veio a vontade de revisitá-la. Foi saudosismo mesmo. Ficou muito bacana o álbum, como se fosse um fanzine de luxo.
Tem algum projeto de republicar algum sucesso seu?
Mike Deodato: Tenho planos de publicar Ramthar. Fiz duas histórias dele em parceria com Mozart Couto que nunca foram publicadas.
uns e charges para jornais? Como e onde se deu essas publicações? Qual o alcance delas?
Mike Deodato: Isso foi nos anos 80. Saíam pelo Jornal Correio da Paraíba.
Quando decidiu virar um desenhista profissional?
Mike Deodato: Desde os meus treze anos eu já sabia o que queria ser. Somente aos 28 foi que consegui viver dos quadrinhos.
Pode se considerar autodidata no desenho? Fale um pouco sobre.
Mike Deodato: Tudo que sei de quadrinho eu aprendi copiando de gibis, então sim, pode-se dizer assim.
Como o mercado americano descobriu o seu trabalho e qual a história por trás do primeiro convite?
Mike Deodato: Foi através da agência Art & Comics, que surgiu para representar quadrinistas brasileiros no exterior. Eles me ligaram por volta de 1991 e me ofereceram uma história chamada Santa Claws, para a editora "Malibu”.
O pseudônimo que utiliza, Mike Deodato Jr. Foi uma exigência dos editores americanos?
Mike Deodato: Foi uma sugestão de meus agentes porque eles acreditavam que havia uma rejeição por parte de editores e leitores à nomes que não fossem americanos.
Como se dava a produção para uma revista americana?
Mike Deodato: Era o mesmo processo de hoje, sem as facilidades da internet. Eu recebia o roteiro, mandava layouts via fax para aprovação e depois de terminá-los, os enviava via correio.
Você aderiu às novas ferramentas que a tecnologia trouxe? Utiliza o desenho digital?
Mike Deodato: Hoje em dia eu desenho tudo em uma mesa digital, o que significa que o original de papel não existe.
Por que “Miracleman Triunphant” não foi publicada? Qual sua reação ao saber que não seria publicada?
Mike Deodato: A Editora Eclipse faliu. Não senti muito na época porque era tudo muito corrido, dinâmico. Eu provavelmente já estava em dois outros projetos diferentes, logo após finalizar o primeiro número.
A “Era Image” teve uma grande influência em você, não?
Mike Deodato: Foi bem marcante sim. Fiquei impressionado com a energia, cores e o dinamismo.
Nos fale sobre Glory.
Mike Deodato: Era para ser a resposta da Image ao sucesso da Mulher Maravilha, por isso me contrataram, acho. Foi bacana finalmente ver meus desenhos com cores de última geração e finalmente poder fazer algo pra Image.
Teve algum problema para receber algum trabalho?
Mike Deodato: Tive alguns calotes no meio do caminho, mas depois que cheguei as grandes editoras tudo ficou mais fácil.
Por muito tempo, você ficou conhecido por desenhar as mulheres mais sensuais dos quadrinhos. Esse rótulo chegou a incomodar? Isso limitou os projetos que lhe eram oferecidos?
Mike Deodato: Deve ter limitado por um período, mas eu achava natural. De qualquer maneira, eu sempre pude demonstrar minha versatilidade e conseguir outros projetos.
Chegou a usar referências fotográficas? Nos conte a respeito.
Mike Deodato: Ainda uso até hoje. São ótimas fontes de referência, especialmente para sombreado e expressões corporais e faciais.
Falando das grandes editoras, Marvel e DC, você começou na DC, mas se estabeleceu na Marvel, a que se deve isso?
Mike Deodato: As duas sempre me trataram bem e com respeito, mas me sinto bem na Marvel e não vejo porque mudar.
O que difere o trabalho na Marvel do trabalho em outras editoras?
Mike Deodato: Meu trabalho difere um do outro de acordo com a época ou com o projeto que estou trabalhando, a editora não tem influência nisso.
Qual personagem é o seu favorito? Qual você sente o desejo de desenvolver um projeto?
Mike Deodato: Wolverine. Queria fazer algo com Tarzan, Príncipe Valente, os clássicos.
Em outras editoras, qual personagem gostaria de trabalhar?
Mike Deodato: Man Bat, Batman, Swamp Thing, Jonah Hex.
Qual o trabalho que mais se orgulha de ter feito e por quê?
Mike Deodato: Thanos. É uma história incrível e minha arte está num estilo que soa clássica e moderna ao mesmo tempo.
Já mudou de estilo? Até que ponto você pode ousar? Algum trabalho que gostaria de esquecer?
Mike Deodato: Muitas vezes. Se o personagem é meu, não tenho limites, mas se é trabalho para editoras que detém os direitos do personagem, eu posso ir até aonde eles aceitarem. Mas a Marvel tem sido, a grande maioria das vezes, bem receptiva.
Como vê o mercado nacional de antes e o de hoje? O que melhorou para os Quadrinhos Nacionais?
Mike Deodato: Mais editoras, mais eventos, mais títulos, mais autores, mais vendas. Estamos num período muito bom tanto comercialmente quanto criativamente, na minha opinião.
Nos fale um pouco de “Original Sin”. Como foi o seu trabalho nessa série?
Mike Deodato: Foi o primeiro evento que eu peguei na Marvel. Um tipo diferente de evento, mais contido, uma história de assassinato, bem no estilo noir, bem parecido com meu estilo.
Já sabe qual será o seu próximo projeto?
Mike Deodato: Por enquanto só Old Man Logan.
Nos conte sobre sua parceria com Brian Michael Ben-dis.
Mike Deodato: Já trabalhamos muitas vezes juntos, somos amigos, o que torna mais fácil e fluida a parceria. Adoro trabalhar com ele.
Poderia nos citar alguns talentos que surgiram no mercado nacional de quadrinhos?
Mike Deodato: Recentes? Os três MSP 50 são um mostruário do que tem de melhor no quadrinho naci-onal. A Editora Mino também tem revelado incríveis talentos.
Como se deu o fato de originais seus feitos, para a revista “A Espada Selvagem de Conan”, que não foram devolvidos? Conseguiu reavê-los?
Mike Deodato: Alguns apenas. A editora ainda me deve a devolução do resto.
Como você vê o fato de publicar costumeiramente artes em redes sociais?
Mike Deodato: Acho uma maneira muito bacana de receber uma resposta imediata dos meus leitores. É uma troca muito boa.
Como vê o universo independente dos fanzines? O que acha que eles representam?
Mike Deodato: Para mim foram laboratórios aonde pude experimentar e crescer como autor.
O que significa, para você, liberdade de criação?
Mike Deodato: Duas palavras: Quadrinho autoral.
Publica algum quadrinho por hobby?
Mike Deodato: Hoje não mais, mas sinto falta dessa falta de compromisso.
Quem é o Mike Deodato, como se definiria?
Mike Deodato: Campinense cabra macho sim senhor.
Qual a mensagem você deixaria para os fãs do seu trabalho e para aqueles que querem seguir essa car-reira?
Mike Deodato: Não esperem ser descobertos. Comecem já a fazer seu próprio quadrinho.
Há vida para o quadrinho nacional frente às grandes editoras como a Marvel?
Mike Deodato: Claro! Temos muita história para contar.
O que seria preciso para que isso funcionasse aqui no Brasil?
Mike Deodato: Acredito que estamos no caminho certo. Não dá para imitar os americanos. Cada país tem suas próprias características de mercado.
O Maurício de Souza, em uma entrevista recente, con-siderou que os quadrinhos de super-heróis estão sendo reinventados por novos artistas, citando entre os grandes, brasileiros como Mike Deodato. Qual sua opinião sobre essa possibilidade de renovação no gênero super-heróis?
Mike Deodato: Acho que qualquer gênero pode ser reinventado, só depende de criadores que ousem e se desafiem. Essa busca pela descoberta é o que torna nossa arte interessante.
Qual a influência de seu pai na sua formação como quadrinhista?
Mike Deodato: Meu pai foi a principal razão de eu me tornar um quadrinista. Sua maestria como criador e seu carinho e incentivo como pai foram minhas fundações.
Os lançamentos "Quadros" e a republicação de “3000 Anos Depois”, apresentam aos novos leitores a faceta autoral de Deodato, aquela, presente nos fanzines do século XX. Sente saudades de produzir trabalhos autorais? Há novos trabalhos autorais em pauta?
Mike Deodato: Estou com uma nova história pela metade, mas tive que parar devido aos meus compromissos com a Marvel. Sinto saudade sim, não tem nada que se compare a trabalhar em um projeto seu.
Mini currículo que gostaria que aparecesse na entrevista.
Mike Deodato: Natural de Campina Grande (PB), Deodato tornou-se quadrinista influenciado por seu pai, o jornalista, radialista, roteirista e também autor de HQs Deodato Borges. A carreira internacional começou depois da participação do XIII Salão Internacional de Angoulême, na França, quando teve trabalhos publicados na Bélgica, França e Portugal.
Em 1994, tornou-se conhecido do grande público ao desenhar a revista da Mulher-Maravilha (DC Comics), sendo depois contratado pela Marvel – onde ainda é considerado um de seus artistas mais importantes – para ilustrar diversos heróis como Thor, Hulk, Homem-Aranha, Os Vingadores e Elektra.
Atualmente desenha a revista mensal Old Man Logan.
O Múltiplo agradece a disponibilidade e o carinho de Mike Deodato, ao aceitar nos presentear com essa entrevista especial, dizendo que o seu talento faz jovens e adultos do mundo inteiro sonharem com o mundo das HQs.
E não poderíamos deixar de agradecer também, em forma de homenagem, ao maior responsável por termos o seu talento no mundo dos Quadrinhos. Fica aqui o nosso respeito a você e principalmente ao seu maior mentor, SEU PAI!
MIKE DEODATO E DEODATO BORGES, TALENTOS BRASILEIROS DAS HQs!!!
Mike Deodato: Meu pai, Deodato Borges, criador do Flama, primeiro herói em quadrinhos do Nordeste, em 1963.
Quais os trabalhos que influenciaram seu modo de desenhar?
Mike Deodato: Spirit, Chandler, Heavy Metal Magazine, Batman - Ano 1, Cinco por Infinitus.
Nos fale um pouco de sua primeira revista indepen-dente e do seu personagem Ninja.
Mike Deodato: Foi criada em 1980, eu tinha só 17 anos. O nome era Revista HQ. O personagem, O Ninja, foi criação minha e de meu amigo José Augusto. Era um ninja que passara para o lado do bem, deixando de ser um assassino de aluguel para defender quem precisasse.
O que seu pai representou para você profissionalmente? Ele também era quadrinista?
Mike Deodato: Nós trabalhamos como uma dupla durante muitos anos. Foi aonde aprendi muito sobre narrativa. Ele escrevia os roteiros em forma de pequenos sketchesdas, páginas com os balões e tudo. Receber os roteiros assim era uma grande aula.Como foi sua vida no mundo dos fanzines e dos quadrinhos? Poderia falar de cada fase?
Mike Deodato: O tempo dos fanzines era um período de descoberta, aprendizado. Não dava para viver deles, mas era muito gratificante de qualquer maneira. Hoje em dia eu tenho a mesma alegria, e ainda por cima, tenho o reconhecimento e ganho o suficiente para viver do que faço.
Você é da Paraíba, não é? O que foi fazer “A História da Paraíba” em quadrinhos?
Mike Deodato: Foi bem trabalhoso. O prazo era curto e havia muita pesquisa. O resultado foi bom. Foi bacana ter uma revista distribuída para escolas públicas e poder alcançar um público diferente.
Trabalhou em alguma editora nacional?
Mike Deodato: Algumas: Icea, Vecchi, Maciota, Abril, e outras que não lembro.Em quais países publicou seus trabalhos?
Mike Deodato: A Marvel e DC estão no mundo todo, então...
A “Mulher Maravilha” foi o seu reconhecimento no mercado americano? Fale um pouco dessa fase.
Mike Deodato: A revista, segundo me disseram na época, teve suas vendas triplicadas depois de minha chegada. Eram os anos 90 então tudo era muito exagerado: violência, sensualidade, roupas. Minha fase refletiu tudo isso.
Hoje você tem contrato com a Marvel, não é mesmo? Qual (is) personagem (ns) você desenha hoje para a Marvel?
Mike Deodato: Old Man Logan.
Quais personagens da Marvel você desenhou ao longo desse tempo?
Mike Deodato: Estou por lá desde 1995, então posso dizer que desenhei quase todos.
Como foi produzir para a revista mensal da Elektra?
Mike Deodato: Trabalhei com dois escritores com estilos distintos: Milligan, que focava mais nos relacionamentos e Hama, cujo foco era na ação. Foi uma época divertida.
No Brasil, quais trabalhos marcaram a sua carreira?
Mike Deodato: 3000 Anos Depois, A Arte Cartum de Mike Deodato e Quadros.
O seu traço tem influência de quais quadrinistas internacionais/nacionais?
Mike Deodato: Muitos, mas os principais autores foram Eisner, Neal Adams, Frazetta, Steranko, Ziraldo, Mozart Couto.
O seu traço tem um certo domínio do claro-escuro, como se dá isso?
Mike Deodato: É uma preferência minha, influência de Will Eisner.
Pelo que já ouvi falar do seu trabalho, você domina tanto o Preto e Branco quanto o Colorido. Tem preferência por algum deles? Qual o estilo que marca a sua carreira de desenhista?
Mike Deodato: O preto e branco, definitivamente, tanto por preferência quanto por ser marcante em minha carreira.
Nos conte sobre os seus quadrinhos autorais.
Mike Deodato: O principal deles se chama Quadros, publicado pela Editora Mino. São crônicas em quadrinhos aonde falo de tudo um pouco, e experimento graficamente como em nenhuma obra minha anterior.
Como era acompanhar os trabalhos de seu pai?
Mike Deodato: Um privilégio, um prazer vê-lo criar personagens e mundos do nada. Ele era genial.
Quando começou efetivamente a desenhar? Quais os trabalhos iniciais?
Mike Deodato: Comecei aos treze, mas publiquei somente aos quinze em um jornal local. Meu primeiro trabalho em quadrinhos pago foi aos 22.
Realizou parcerias com seu pai? Quais e como nasceram esses projetos?
Mike Deodato: Muitos para listar aqui, mas os mais importantes foram 3000 Anos Depois, um álbum no qual meu estilo atual já começava a tomar forma e Verso-reverso, que foi nosso primeiro trabalho publicado por uma grande editora, a Editora Abril.
O que você pode nos dizer sobre a reedição no Brasil de 3000 Anos Depois?
Por que você incluiu duas páginas inéditas nesse tra-balho?
Mike Deodato: Enquanto eu participava da coletânea de imagens e histórias, e depois de dar várias entrevistas sobre a época, me veio a vontade de revisitá-la. Foi saudosismo mesmo. Ficou muito bacana o álbum, como se fosse um fanzine de luxo.
Tem algum projeto de republicar algum sucesso seu?
Mike Deodato: Tenho planos de publicar Ramthar. Fiz duas histórias dele em parceria com Mozart Couto que nunca foram publicadas.
uns e charges para jornais? Como e onde se deu essas publicações? Qual o alcance delas?
Mike Deodato: Isso foi nos anos 80. Saíam pelo Jornal Correio da Paraíba.
Quando decidiu virar um desenhista profissional?
Mike Deodato: Desde os meus treze anos eu já sabia o que queria ser. Somente aos 28 foi que consegui viver dos quadrinhos.
Pode se considerar autodidata no desenho? Fale um pouco sobre.
Mike Deodato: Tudo que sei de quadrinho eu aprendi copiando de gibis, então sim, pode-se dizer assim.
Como o mercado americano descobriu o seu trabalho e qual a história por trás do primeiro convite?
Mike Deodato: Foi através da agência Art & Comics, que surgiu para representar quadrinistas brasileiros no exterior. Eles me ligaram por volta de 1991 e me ofereceram uma história chamada Santa Claws, para a editora "Malibu”.
O pseudônimo que utiliza, Mike Deodato Jr. Foi uma exigência dos editores americanos?
Mike Deodato: Foi uma sugestão de meus agentes porque eles acreditavam que havia uma rejeição por parte de editores e leitores à nomes que não fossem americanos.
Como se dava a produção para uma revista americana?
Mike Deodato: Era o mesmo processo de hoje, sem as facilidades da internet. Eu recebia o roteiro, mandava layouts via fax para aprovação e depois de terminá-los, os enviava via correio.
Você aderiu às novas ferramentas que a tecnologia trouxe? Utiliza o desenho digital?
Mike Deodato: Hoje em dia eu desenho tudo em uma mesa digital, o que significa que o original de papel não existe.
Por que “Miracleman Triunphant” não foi publicada? Qual sua reação ao saber que não seria publicada?
Mike Deodato: A Editora Eclipse faliu. Não senti muito na época porque era tudo muito corrido, dinâmico. Eu provavelmente já estava em dois outros projetos diferentes, logo após finalizar o primeiro número.
A “Era Image” teve uma grande influência em você, não?
Mike Deodato: Foi bem marcante sim. Fiquei impressionado com a energia, cores e o dinamismo.
Nos fale sobre Glory.
Mike Deodato: Era para ser a resposta da Image ao sucesso da Mulher Maravilha, por isso me contrataram, acho. Foi bacana finalmente ver meus desenhos com cores de última geração e finalmente poder fazer algo pra Image.
Teve algum problema para receber algum trabalho?
Mike Deodato: Tive alguns calotes no meio do caminho, mas depois que cheguei as grandes editoras tudo ficou mais fácil.
Por muito tempo, você ficou conhecido por desenhar as mulheres mais sensuais dos quadrinhos. Esse rótulo chegou a incomodar? Isso limitou os projetos que lhe eram oferecidos?
Mike Deodato: Deve ter limitado por um período, mas eu achava natural. De qualquer maneira, eu sempre pude demonstrar minha versatilidade e conseguir outros projetos.
Chegou a usar referências fotográficas? Nos conte a respeito.
Mike Deodato: Ainda uso até hoje. São ótimas fontes de referência, especialmente para sombreado e expressões corporais e faciais.
Falando das grandes editoras, Marvel e DC, você começou na DC, mas se estabeleceu na Marvel, a que se deve isso?
Mike Deodato: As duas sempre me trataram bem e com respeito, mas me sinto bem na Marvel e não vejo porque mudar.
O que difere o trabalho na Marvel do trabalho em outras editoras?
Mike Deodato: Meu trabalho difere um do outro de acordo com a época ou com o projeto que estou trabalhando, a editora não tem influência nisso.
Qual personagem é o seu favorito? Qual você sente o desejo de desenvolver um projeto?
Mike Deodato: Wolverine. Queria fazer algo com Tarzan, Príncipe Valente, os clássicos.
Em outras editoras, qual personagem gostaria de trabalhar?
Mike Deodato: Man Bat, Batman, Swamp Thing, Jonah Hex.
Qual o trabalho que mais se orgulha de ter feito e por quê?
Mike Deodato: Thanos. É uma história incrível e minha arte está num estilo que soa clássica e moderna ao mesmo tempo.
Já mudou de estilo? Até que ponto você pode ousar? Algum trabalho que gostaria de esquecer?
Mike Deodato: Muitas vezes. Se o personagem é meu, não tenho limites, mas se é trabalho para editoras que detém os direitos do personagem, eu posso ir até aonde eles aceitarem. Mas a Marvel tem sido, a grande maioria das vezes, bem receptiva.
Como vê o mercado nacional de antes e o de hoje? O que melhorou para os Quadrinhos Nacionais?
Mike Deodato: Mais editoras, mais eventos, mais títulos, mais autores, mais vendas. Estamos num período muito bom tanto comercialmente quanto criativamente, na minha opinião.
Nos fale um pouco de “Original Sin”. Como foi o seu trabalho nessa série?
Mike Deodato: Foi o primeiro evento que eu peguei na Marvel. Um tipo diferente de evento, mais contido, uma história de assassinato, bem no estilo noir, bem parecido com meu estilo.
Já sabe qual será o seu próximo projeto?
Mike Deodato: Por enquanto só Old Man Logan.
Nos conte sobre sua parceria com Brian Michael Ben-dis.
Mike Deodato: Já trabalhamos muitas vezes juntos, somos amigos, o que torna mais fácil e fluida a parceria. Adoro trabalhar com ele.
Poderia nos citar alguns talentos que surgiram no mercado nacional de quadrinhos?
Mike Deodato: Recentes? Os três MSP 50 são um mostruário do que tem de melhor no quadrinho naci-onal. A Editora Mino também tem revelado incríveis talentos.
Como se deu o fato de originais seus feitos, para a revista “A Espada Selvagem de Conan”, que não foram devolvidos? Conseguiu reavê-los?
Mike Deodato: Alguns apenas. A editora ainda me deve a devolução do resto.
Como você vê o fato de publicar costumeiramente artes em redes sociais?
Mike Deodato: Acho uma maneira muito bacana de receber uma resposta imediata dos meus leitores. É uma troca muito boa.
Como vê o universo independente dos fanzines? O que acha que eles representam?
Mike Deodato: Para mim foram laboratórios aonde pude experimentar e crescer como autor.
O que significa, para você, liberdade de criação?
Mike Deodato: Duas palavras: Quadrinho autoral.
Publica algum quadrinho por hobby?
Mike Deodato: Hoje não mais, mas sinto falta dessa falta de compromisso.
Quem é o Mike Deodato, como se definiria?
Mike Deodato: Campinense cabra macho sim senhor.
Qual a mensagem você deixaria para os fãs do seu trabalho e para aqueles que querem seguir essa car-reira?
Mike Deodato: Não esperem ser descobertos. Comecem já a fazer seu próprio quadrinho.
Há vida para o quadrinho nacional frente às grandes editoras como a Marvel?
Mike Deodato: Claro! Temos muita história para contar.
O que seria preciso para que isso funcionasse aqui no Brasil?
Mike Deodato: Acredito que estamos no caminho certo. Não dá para imitar os americanos. Cada país tem suas próprias características de mercado.
O Maurício de Souza, em uma entrevista recente, con-siderou que os quadrinhos de super-heróis estão sendo reinventados por novos artistas, citando entre os grandes, brasileiros como Mike Deodato. Qual sua opinião sobre essa possibilidade de renovação no gênero super-heróis?
Mike Deodato: Acho que qualquer gênero pode ser reinventado, só depende de criadores que ousem e se desafiem. Essa busca pela descoberta é o que torna nossa arte interessante.
Qual a influência de seu pai na sua formação como quadrinhista?
Mike Deodato: Meu pai foi a principal razão de eu me tornar um quadrinista. Sua maestria como criador e seu carinho e incentivo como pai foram minhas fundações.
Os lançamentos "Quadros" e a republicação de “3000 Anos Depois”, apresentam aos novos leitores a faceta autoral de Deodato, aquela, presente nos fanzines do século XX. Sente saudades de produzir trabalhos autorais? Há novos trabalhos autorais em pauta?
Mike Deodato: Estou com uma nova história pela metade, mas tive que parar devido aos meus compromissos com a Marvel. Sinto saudade sim, não tem nada que se compare a trabalhar em um projeto seu.
Mini currículo que gostaria que aparecesse na entrevista.
Mike Deodato: Natural de Campina Grande (PB), Deodato tornou-se quadrinista influenciado por seu pai, o jornalista, radialista, roteirista e também autor de HQs Deodato Borges. A carreira internacional começou depois da participação do XIII Salão Internacional de Angoulême, na França, quando teve trabalhos publicados na Bélgica, França e Portugal.
Em 1994, tornou-se conhecido do grande público ao desenhar a revista da Mulher-Maravilha (DC Comics), sendo depois contratado pela Marvel – onde ainda é considerado um de seus artistas mais importantes – para ilustrar diversos heróis como Thor, Hulk, Homem-Aranha, Os Vingadores e Elektra.
Atualmente desenha a revista mensal Old Man Logan.
O Múltiplo agradece a disponibilidade e o carinho de Mike Deodato, ao aceitar nos presentear com essa entrevista especial, dizendo que o seu talento faz jovens e adultos do mundo inteiro sonharem com o mundo das HQs.
E não poderíamos deixar de agradecer também, em forma de homenagem, ao maior responsável por termos o seu talento no mundo dos Quadrinhos. Fica aqui o nosso respeito a você e principalmente ao seu maior mentor, SEU PAI!
MIKE DEODATO E DEODATO BORGES, TALENTOS BRASILEIROS DAS HQs!!!
sábado, 29 de abril de 2017
Em destaque - Fernando Marques
Sempre que possível vamos colocar um artista em destaque, falando um pouco de sua trajetória no mundo dos quadrinhos e dando a você a oportunidade de conhecer um pouco mais da sua vida. Este primeiro traz o amigo Fernando Marques, um breve relato sobre sua biografia e algumas tiras... espero que curtam a novidade...
Fernando Marques nasceu em maio de 1963, e desde pequeno gostava de quadrinhos e desenhos animados. Rabiscava em seus cadernos seus personagens favoritos e criava histórias para eles diferentes das que via na TV.
Em 1974 criou seus primeiros personagens (alguns vivos até hoje) e seu primeiro caderno de histórias, e aí não parou mais. De lá para cá foram criados muitos outros tipos e muitas outras histórias.
Deixou um pouco os quadrinhos de lado de 1982 a 1988, quando começou a trabalhar em rádios FM como locutor e programador musical. Mas, apesar de gostar muito, viu que o caminho não era só esse, e começou a se dedicar novamente aos quadrinhos.
Em 1988, começou a publicar as tiras de Betão & Cia! diariamente no (extinto) Jornal de Petrópolis. Em 1989 nasceu uma de suas personagens principais: a gatinha Tatá, cujo primeiro trabalho foi virar capa de caderno. Nessa época, começou a fazer algumas ilustrações para um outro periódico (Jornal Cultural Obelisco) que, em 1989, com o fim do Jornal de Petrópolis, passa a publicar as tiras do “Betão e Cia!”. No ano seguinte estes personagens ganharam seu espaço próprio: entra em cena a Tribuninha, suplemento infantil do jornal Tribuna de Petrópolis. Nele são publicadas tiras, historinhas e passatempos com a gatinha Tatá, “Betão e Cia!” e muitos outros.
Em abril de 1993 nasceu o Diarinho, e Fernando Marques monopolizou o mercado de suplementos infantis em Petrópolis. Nesse jornalzinho encartado no jornal Diário de Petrópolis, publicou tiras dos Pirralhos e do João, e ilustrou as histórias infantis. Mas, infelizmente, por motivos diversos, o Diarinho teve vida curta. Foram 5 meses de publicação. Então os Pirralhos e o João foram ocupar um merecido espaço na Tribuninha, um grande sucesso entre as crianças da cidade.
Seus Trabalhos
O primeiro trabalho como ilustrador foi em 1977, quando ilustrou o livro “Dicas Úteis para sua Cozinha”, da Ediouro.
Em 1986, elaborou o cartão de Natal da rede Transamérica de Rádio. Em 1989, criou algumas capas para os cadernos de uma indústria de papéis de Petrópolis. Foi onde a gatinha Tatá apareceu pela primeira vez. Estes cadernos foram vendidos em todo o Brasil. Depois disso ficou cuidando mais da Tribuninha até que, em 1993, resolveu fazer sua primeira revista em quadrinhos. Pegou o texto de um livro da escritora Stella Carr, adaptou para seus personagens e publicou a revista “O Segredo do Museu Imperial”. Lançou-a independente na Bienal do Livro de São Paulo, em 1994, que teve a participação da autora e do pessoal do stand da Editora Moderna.
Em 1995, teve seu trabalho encomendado para ilustrar uma estória infantil, da escritora Laíta Born. Utilizou seus personagens de quadrinhos (Os Pirralhos) e o livrinho foi distribuído em diversas escolas da cidade, com o apoio do Ministério da Cultura.
Ainda em 1995, outra encomenda: dessa vez um professor e historiador resolveu mudar e lançar, em vez de livro, uma revista em quadrinhos contando a história de Petrópolis. Pelo fato do professor estar com pressa da publicação, a revista não saiu boa. Uma versão atualizada da História de Petrópolis em Quadrinhos está pronta para ser publicada, com 80 páginas coloridas e passatempos sobre o tema da história, onde dois personagens batem o maior papo sobre fatos históricos e curiosidades da Cidade Imperial.
O suplemento Tribuninha continua hoje com seu sucesso. São 26 anos na estrada, divertindo e divulgando a cultura, sempre com muitas ilustrações e muito bom humor. Nesse caminho nasceu um irmãozinho, o Diarinho, que foi publicado semanalmente no jornal Diário do Vale, no sul-fluminense, entre 2011 e 2014.
No segmento rádio, embora esteja disponível profissionalmente no momento, passou pelas rádios Melodia, Musical, Imperial e Tribuna em Petrópolis, Manchete (RJ), Transamérica (SP) e Coca-Cola FM (SP) exercendo funções de locutor, operador de áudio, programador musical, DJ e coordenador.
Fernando Marques nasceu em maio de 1963, e desde pequeno gostava de quadrinhos e desenhos animados. Rabiscava em seus cadernos seus personagens favoritos e criava histórias para eles diferentes das que via na TV.
Em 1974 criou seus primeiros personagens (alguns vivos até hoje) e seu primeiro caderno de histórias, e aí não parou mais. De lá para cá foram criados muitos outros tipos e muitas outras histórias.
Deixou um pouco os quadrinhos de lado de 1982 a 1988, quando começou a trabalhar em rádios FM como locutor e programador musical. Mas, apesar de gostar muito, viu que o caminho não era só esse, e começou a se dedicar novamente aos quadrinhos.
Em 1988, começou a publicar as tiras de Betão & Cia! diariamente no (extinto) Jornal de Petrópolis. Em 1989 nasceu uma de suas personagens principais: a gatinha Tatá, cujo primeiro trabalho foi virar capa de caderno. Nessa época, começou a fazer algumas ilustrações para um outro periódico (Jornal Cultural Obelisco) que, em 1989, com o fim do Jornal de Petrópolis, passa a publicar as tiras do “Betão e Cia!”. No ano seguinte estes personagens ganharam seu espaço próprio: entra em cena a Tribuninha, suplemento infantil do jornal Tribuna de Petrópolis. Nele são publicadas tiras, historinhas e passatempos com a gatinha Tatá, “Betão e Cia!” e muitos outros.
Em abril de 1993 nasceu o Diarinho, e Fernando Marques monopolizou o mercado de suplementos infantis em Petrópolis. Nesse jornalzinho encartado no jornal Diário de Petrópolis, publicou tiras dos Pirralhos e do João, e ilustrou as histórias infantis. Mas, infelizmente, por motivos diversos, o Diarinho teve vida curta. Foram 5 meses de publicação. Então os Pirralhos e o João foram ocupar um merecido espaço na Tribuninha, um grande sucesso entre as crianças da cidade.
Seus Trabalhos
O primeiro trabalho como ilustrador foi em 1977, quando ilustrou o livro “Dicas Úteis para sua Cozinha”, da Ediouro.
Em 1986, elaborou o cartão de Natal da rede Transamérica de Rádio. Em 1989, criou algumas capas para os cadernos de uma indústria de papéis de Petrópolis. Foi onde a gatinha Tatá apareceu pela primeira vez. Estes cadernos foram vendidos em todo o Brasil. Depois disso ficou cuidando mais da Tribuninha até que, em 1993, resolveu fazer sua primeira revista em quadrinhos. Pegou o texto de um livro da escritora Stella Carr, adaptou para seus personagens e publicou a revista “O Segredo do Museu Imperial”. Lançou-a independente na Bienal do Livro de São Paulo, em 1994, que teve a participação da autora e do pessoal do stand da Editora Moderna.
Em 1995, teve seu trabalho encomendado para ilustrar uma estória infantil, da escritora Laíta Born. Utilizou seus personagens de quadrinhos (Os Pirralhos) e o livrinho foi distribuído em diversas escolas da cidade, com o apoio do Ministério da Cultura.
Ainda em 1995, outra encomenda: dessa vez um professor e historiador resolveu mudar e lançar, em vez de livro, uma revista em quadrinhos contando a história de Petrópolis. Pelo fato do professor estar com pressa da publicação, a revista não saiu boa. Uma versão atualizada da História de Petrópolis em Quadrinhos está pronta para ser publicada, com 80 páginas coloridas e passatempos sobre o tema da história, onde dois personagens batem o maior papo sobre fatos históricos e curiosidades da Cidade Imperial.
O suplemento Tribuninha continua hoje com seu sucesso. São 26 anos na estrada, divertindo e divulgando a cultura, sempre com muitas ilustrações e muito bom humor. Nesse caminho nasceu um irmãozinho, o Diarinho, que foi publicado semanalmente no jornal Diário do Vale, no sul-fluminense, entre 2011 e 2014.
No segmento rádio, embora esteja disponível profissionalmente no momento, passou pelas rádios Melodia, Musical, Imperial e Tribuna em Petrópolis, Manchete (RJ), Transamérica (SP) e Coca-Cola FM (SP) exercendo funções de locutor, operador de áudio, programador musical, DJ e coordenador.
UM BREVE RESUMO...
UM BREVE RESUMO...
Já se passaram 6 meses desde o retorno do Múltiplo ao convívio mensal dos leitores, e muita coisa vem acontecendo de bom no meio alternativo desde então.
É verdade que muita coisa falta ainda para ser ajustada, muita coisa boa está por vir e os acontecimentos vão se acumulando na minha “gaveta”, mas longe disso ser um sinal ruim, pelo contrário, com a consolidação da publicação, seja ela on-line ou impressa, o Múltiplo vem trazendo grandes mestres a cada edição e conciliando eles com a nova geração que vem pedindo passagem.
São inúmeras as manifestações, e posso dizer, sem medo de errar, que os Quadrinhos Nacionais estão mais vivos do que nunca.
Como disse Edgard Guimarães no seu artigo publicado nos anos 1990 e que reproduzi nesta edição do Múltiplo, o mercado de quadrinhos nacionais ainda não é condizente com a qualidade do material que temos visto por aí.
São HQs da mais alta qualidade sendo produzidas constantemente por nossos artistas, podemos ver isso em todas as campanhas do Catarse, bem como nas redes sociais, onde a maioria ainda é de ilustrações... mas ilustrações cada vez melhores, tanto em traço quanto em acabamento.
O Múltiplo nasceu com a ideia de agregar os valores e divulgar sem restrições toda e qualquer manifestação de HQs nacionais e mostrar a força que temos quando estamos unidos. Amigos vão chegando, outros se ausentam por algum motivo, mas o mais importante continua vivo nas páginas do Múltiplo: o espírito de colaboração.
Ideias não faltam, mas é preciso que o quadrinhista entenda que precisa participar, seja com colaborações, seja com comentários, mas acima de tudo, divulgando as edições e compartilhando com os amigos. Uma andorinha só não faz verão, mas todos unidos em prol de um objetivo comum que é a valorização dos quadrinhos nacionais, podem fazer toda a diferença.
Uma paixão como essa é o que me motiva a levar adiante essa empreitada, mesmo com todas as dificuldades do nosso dia a dia, trazendo até as páginas do Múltiplo o carinho com que o artista faz o seu trabalho.
Mais uma edição chega até você com uma diversificação imensa, dando espaço a quadrinhos autorais e demonstrando que toda forma de expressão pode conviver, sem atritos, pelo contrário, completando uma edição cheia de arte. Com nomes consagrados e novos talentos, o Múltiplo pede passagem.
E vamos dando o tom real dos dias de hoje, que poderiam ser cinzentos, mas que se fortalecem nas ideias que surgem e nos trabalhos apresentados. Aos leitores dessa edição deixo simplesmente a sensação de que o trabalho está sendo cumprido de forma correta e trazendo para o nosso convívio diário as amizades que se fortalecem em cada nova publicação.
O Múltiplo é de todos nós, que assim seja sempre...
André Carim
Já se passaram 6 meses desde o retorno do Múltiplo ao convívio mensal dos leitores, e muita coisa vem acontecendo de bom no meio alternativo desde então.
É verdade que muita coisa falta ainda para ser ajustada, muita coisa boa está por vir e os acontecimentos vão se acumulando na minha “gaveta”, mas longe disso ser um sinal ruim, pelo contrário, com a consolidação da publicação, seja ela on-line ou impressa, o Múltiplo vem trazendo grandes mestres a cada edição e conciliando eles com a nova geração que vem pedindo passagem.
São inúmeras as manifestações, e posso dizer, sem medo de errar, que os Quadrinhos Nacionais estão mais vivos do que nunca.
Como disse Edgard Guimarães no seu artigo publicado nos anos 1990 e que reproduzi nesta edição do Múltiplo, o mercado de quadrinhos nacionais ainda não é condizente com a qualidade do material que temos visto por aí.
São HQs da mais alta qualidade sendo produzidas constantemente por nossos artistas, podemos ver isso em todas as campanhas do Catarse, bem como nas redes sociais, onde a maioria ainda é de ilustrações... mas ilustrações cada vez melhores, tanto em traço quanto em acabamento.
O Múltiplo nasceu com a ideia de agregar os valores e divulgar sem restrições toda e qualquer manifestação de HQs nacionais e mostrar a força que temos quando estamos unidos. Amigos vão chegando, outros se ausentam por algum motivo, mas o mais importante continua vivo nas páginas do Múltiplo: o espírito de colaboração.
Ideias não faltam, mas é preciso que o quadrinhista entenda que precisa participar, seja com colaborações, seja com comentários, mas acima de tudo, divulgando as edições e compartilhando com os amigos. Uma andorinha só não faz verão, mas todos unidos em prol de um objetivo comum que é a valorização dos quadrinhos nacionais, podem fazer toda a diferença.
Uma paixão como essa é o que me motiva a levar adiante essa empreitada, mesmo com todas as dificuldades do nosso dia a dia, trazendo até as páginas do Múltiplo o carinho com que o artista faz o seu trabalho.
Mais uma edição chega até você com uma diversificação imensa, dando espaço a quadrinhos autorais e demonstrando que toda forma de expressão pode conviver, sem atritos, pelo contrário, completando uma edição cheia de arte. Com nomes consagrados e novos talentos, o Múltiplo pede passagem.
E vamos dando o tom real dos dias de hoje, que poderiam ser cinzentos, mas que se fortalecem nas ideias que surgem e nos trabalhos apresentados. Aos leitores dessa edição deixo simplesmente a sensação de que o trabalho está sendo cumprido de forma correta e trazendo para o nosso convívio diário as amizades que se fortalecem em cada nova publicação.
O Múltiplo é de todos nós, que assim seja sempre...
André Carim
Editores no Brasil - Edgard Guimarães
Um artigo escrito pelo amigo e Fanzineiro Edgard Guimarães para uma das edições do Múltiplo do ano de 1992 e que ontem relendo, vi que continua mais atual do que nunca. Nele, Edgard cita uma carta recebida do grande desenhista Márcio Sennes Pereira, editor do fanzine “Zonna! ”, e que vale a pena conferir a seguir. Um recado importante para o universo alternativo e para as chamadas “grandes” editoras e editores nacionais. Também pelo rico texto de Edgard com informações importantes sobre o mercado de quadrinhos no Brasil.
“Numa das cartas que me escreveu, Márcio Sennes Pereira, editor do fanzine “Zonna! ”, fez, sobre os editores no Brasil, um comentário com o qual concordo plenamente, tanto que já abordei o tema em entrevistas que dei a alguns fanzines. Agora vou aproveitar o comentário do Márcio para desenvolver um pouco mais o assunto. ”
Editores no Brasil!
“Eu não sei como esses caras que editam quadrinhos no Brasil podem ser chamados de Editores! O Editor lê tudo, vê tudo, busca talento até numa tribo de índios “ianomâmi” se for preciso! Os nossos (editores) não. Olham só para dentro de suas editoras e para quem está perto deles! Se não houver nenhum grande talento ali, para eles não vai haver em outro lugar. A Editora Globo e a Abril têm coragem de lançar personagens estrangeiros desconhecidos do grande público, mas não têm coragem de fazer o mesmo com personagens desconhecidos brasileiros. ” (Márcio Sennes Pereira)
Num curso de quadrinhos que houve na Oficina “Oswald de Andrade” (na época chamada “Três Rios”), em São Paulo, orientado por Álvaro de Moya, e do qual participei, um editor da Editora Abril, presente num debate sobre a dificuldade que existe para o artista brasileiro publicar, disse que muitas vezes o desenhista não publica porque fica em casa esperando que a editora vá atrás dele. Esta declaração é muito importante por dois motivos. Primeiro, porque, realmente, o quadrinhista brasileiro não deve se acomodar, deve procurar toda e qualquer editora, mostrar seu trabalho a todos cujo ofício seja editar, e enfrentar com coragem todas as recusas. Assim, o conselho deve ser seguido por todos que tenham alguma intenção de trabalhar com quadrinhos no Brasil. Por outro lado, a declaração mostra claramente a mentalidade editorial no país. O editor faz exatamente o que aconselha ao quadrinhista não fazer: se acomodar. O editor fica à espera de que os trabalhos a serem publicados venham até ele. Isso, em tese, pois na realidade, a situação é mais séria. O editor não tem visto nem os talentos que se encontram sob suas vistas. A Editora Abril tem a seu serviço pelo menos dois desenhistas da mais alta qualidade – Watson Portela e Gustavo Machado – e os mantém subutilizados nos quadrinhos infantis. Como querer, então, que o editor saia à cata de talentos?
Como disse, a situação é mais séria. Na área dos quadrinhos, praticamente não existe editores no Brasil. Um simples detalhe dá a ideia de como essa afirmação, aparentemente exagerada, reflete bem a situação da editoria de quadrinhos no Brasil. Basta dar uma olhada nas HQs produzidas no país, quando são publicadas, no espaço onde aparecem os créditos do trabalho. No máximo aparecem os nomes do roteirista, do desenhista e do arte-finalista. Nunca aparece o nome do editor. Mas quem acompanhou as revistas de Super-homem e Batman (entre outros), quando publicadas pela Ebal, se lembra que, nos créditos, o primeiro nome que aparecia era o do editor. A Ebal apenas mantinha os créditos como apareciam originalmente nas revistas americanas. Esse detalhe simples mostra claramente a importância do editor americano em todo o processo que resulta numa revista de quadrinhos como produto final. E mais. A função desse editor americano não é puramente comercial, exige-se dele, além de capacidade gerencial, uma grande dose de competência artística, pois ele influi diretamente nos rumos de uma série de HQ, nos destinos de personagens de quadrinhos. Não vou discutir aqui o lado podre desse editor, onde ele representa o cerceamento da liberdade de roteiristas e desenhistas, ou quando toma decisões puramente comerciais (como as que resultou nas mortes de Flash, Super-moça e Robin, entre outros). Não há sentido em se discutir distribuição de renda na Somália. O fato, aqui posto, é que editar quadrinhos no Brasil, para as grandes editoras, parece ser sinônimo de comprar pronto, com três anos de defasagem, o que é produzido nas grandes americanas, e eventualmente publicar um ou outro europeu. Ainda no sentido de evidenciar a importância do editor americano, cabe um exemplo. Muito se falou sobre o renascimento de Batman depois da obra de Frank Miller, “O Cavaleiro das Trevas”. Não há dúvida de que Miller é um excelente roteirista, dono de uma técnica narrativa invejável e um desenhista moderno e expressivo. O que ninguém falou, no entanto, é que “Cavaleiro das Trevas” só foi possível graças ao talento do editor, Denny O’Neil, desde fim da década de sessenta na ativa e causando pequenas revoluções. E foi O’Neil que, no começo de setenta, como roteirista, criou o Batman moderno que está aí até hoje. E deve ser creditado, em grande parte, aos editores, o mérito pela ressurreição do mercado de quadrinhos de super-herói nos EUA nos últimos dez anos.
No começo de oitenta, Raul Veiga, que acabara de chegar dos Estados Unidos, previa em seu fanzine “O Lobinho” a queda dos gibis de super-heróis, devido ao aumento dos preços das revistas e o congelamento das mesadas da garotada. E não é que as editoras deram a volta por cima, descobrindo o mercado adulto com a sofisticação de seus produtos. Não haja dúvida, portanto, que a presença do editor à frente da produção de quadrinhos, coordenando suas diversas etapas, participando ativamente de sua realização, é o segredo do sucesso da indústria americana de revistas de HQs.
No Brasil, esporadicamente se vê um editor nesses moldes. Um dos que parecem ter consciência de como um editor deve se portar é Octacílio Barros D’Assunção. Entre fim de setenta e início de oitenta, na Editora Vecchi, ele mostrou claramente, em etapas, como editar quadrinhos no Brasil. Publicou alguns almanaques de terror somente com enlatados de custo barato. Encontrando o público, passou a substituir os enlatados por material brasileiro engavetado ou republicando HQs antigas. O passo seguinte foi criar uma equipe de produção de quadrinhos, com talentos inquestionáveis, que manteve regularmente nas bancas uma meia dúzia de títulos, até a falência da editora, que não foi por culpa das revistas ou do editor. Peço desculpas por alguma injustiça que eu esteja cometendo, mas fora esse ou outro caso, o restante da atividade de editor se resume à mera compra de material estrangeiro, ao aproveitamento de modismos (Fofão, Gugu, He-Man), à utilização de personagens consagrados (Disney, Recruta Zero, Lulu e Bolinha), a iniciativas desarticuladas que, apesar de boas intenções, não chegam a consolidar, e, o pior, a picaretagem de muitas pequenas editoras.
Essa afirmação de que praticamente não há editor de quadrinhos no Brasil encontra reforço em dois fatos que narrarei, como exemplo. Em 1974, a Editora Abril lançou a revista “Crás! ”, formato “Veja”, colorida, papel de qualidade, somente com quadrinhos brasileiros. Essa revista durou dois números nesse formato e fórmula. Depois virou revista infantil. Nesses dois primeiros números, “Crás! ” se mostrou uma das melhores revistas já editadas nesse país. Trouxe material variado, praticamente tudo de qualidade, reunindo num mesmo miolo, Jayme Cortez, Lanzellotti, Ivan Rodrigues, Canini, Herrero, Ciça, Perotti, entre tantos. Uma autêntica revista de quadrinhos, precursora de “Inter Quadrinhos” e “Animal”. No mesmo curso mencionado no início desse texto, o editor da Abril presente informou que “Crás! ” não foi cancelada por problemas de vendas. Disse até que ela vendeu bem. O motivo do cancelamento, segundo ele, foi de falta de material para fazer a revista. Ora, parece brincadeira que no Brasil de dezenas de artistas talentosíssimos que não encontram espaço para publicar, uma revista de ótima qualidade tenha acabado porque não os encontrou. Esse é o maior atestado da incompetência do editor, ou, como venho defendendo, da inexistência de uma pessoa que possa receber esse nome de Editor. Mais recentemente outro fato grave aponta nessa direção. Desde meados de 86, depois do Plano Cruzado, o mercado de gibis no Brasil vinha se expandindo, em repetidos “buns”. Nem mesmo o confisco de cruzados novos, feito por Collor em sua entrada de leão, afetou o bolso do leitor de quadrinhos que continuou mantendo o mercado aquecido. Somente o agravamento da recessão, mais para o meio de 91, conseguiu afetar as editoras causando um festival de cancelamentos. Num desses “buns”, as grandes editoras lançaram revistas, minisséries, graphic novels de todo tipo. Parecia que o leitor estava comprando qualquer coisa. E estava mesmo, já que as editoras continuaram. Pois nesse mesmo praticamente nenhum lançamento foi de quadrinho brasileiro. Novamente, ora, se há uma ocasião tão propícia assim para se fincar as bases de uma indústria de quadrinhos brasileiros, aproveitando a avidez do leitor por novidades, para consolidar personagens, revistas e hábitos, e não há uma única revista lançada, agora pergunto, tem sentido usar a palavra Editor no Brasil?
EDGARD GUIMARÃES
EDITOR DO INFORMATIVO
“QUADRINHOS INDEPENDENTES”
“Numa das cartas que me escreveu, Márcio Sennes Pereira, editor do fanzine “Zonna! ”, fez, sobre os editores no Brasil, um comentário com o qual concordo plenamente, tanto que já abordei o tema em entrevistas que dei a alguns fanzines. Agora vou aproveitar o comentário do Márcio para desenvolver um pouco mais o assunto. ”
Editores no Brasil!
“Eu não sei como esses caras que editam quadrinhos no Brasil podem ser chamados de Editores! O Editor lê tudo, vê tudo, busca talento até numa tribo de índios “ianomâmi” se for preciso! Os nossos (editores) não. Olham só para dentro de suas editoras e para quem está perto deles! Se não houver nenhum grande talento ali, para eles não vai haver em outro lugar. A Editora Globo e a Abril têm coragem de lançar personagens estrangeiros desconhecidos do grande público, mas não têm coragem de fazer o mesmo com personagens desconhecidos brasileiros. ” (Márcio Sennes Pereira)
Num curso de quadrinhos que houve na Oficina “Oswald de Andrade” (na época chamada “Três Rios”), em São Paulo, orientado por Álvaro de Moya, e do qual participei, um editor da Editora Abril, presente num debate sobre a dificuldade que existe para o artista brasileiro publicar, disse que muitas vezes o desenhista não publica porque fica em casa esperando que a editora vá atrás dele. Esta declaração é muito importante por dois motivos. Primeiro, porque, realmente, o quadrinhista brasileiro não deve se acomodar, deve procurar toda e qualquer editora, mostrar seu trabalho a todos cujo ofício seja editar, e enfrentar com coragem todas as recusas. Assim, o conselho deve ser seguido por todos que tenham alguma intenção de trabalhar com quadrinhos no Brasil. Por outro lado, a declaração mostra claramente a mentalidade editorial no país. O editor faz exatamente o que aconselha ao quadrinhista não fazer: se acomodar. O editor fica à espera de que os trabalhos a serem publicados venham até ele. Isso, em tese, pois na realidade, a situação é mais séria. O editor não tem visto nem os talentos que se encontram sob suas vistas. A Editora Abril tem a seu serviço pelo menos dois desenhistas da mais alta qualidade – Watson Portela e Gustavo Machado – e os mantém subutilizados nos quadrinhos infantis. Como querer, então, que o editor saia à cata de talentos?
Como disse, a situação é mais séria. Na área dos quadrinhos, praticamente não existe editores no Brasil. Um simples detalhe dá a ideia de como essa afirmação, aparentemente exagerada, reflete bem a situação da editoria de quadrinhos no Brasil. Basta dar uma olhada nas HQs produzidas no país, quando são publicadas, no espaço onde aparecem os créditos do trabalho. No máximo aparecem os nomes do roteirista, do desenhista e do arte-finalista. Nunca aparece o nome do editor. Mas quem acompanhou as revistas de Super-homem e Batman (entre outros), quando publicadas pela Ebal, se lembra que, nos créditos, o primeiro nome que aparecia era o do editor. A Ebal apenas mantinha os créditos como apareciam originalmente nas revistas americanas. Esse detalhe simples mostra claramente a importância do editor americano em todo o processo que resulta numa revista de quadrinhos como produto final. E mais. A função desse editor americano não é puramente comercial, exige-se dele, além de capacidade gerencial, uma grande dose de competência artística, pois ele influi diretamente nos rumos de uma série de HQ, nos destinos de personagens de quadrinhos. Não vou discutir aqui o lado podre desse editor, onde ele representa o cerceamento da liberdade de roteiristas e desenhistas, ou quando toma decisões puramente comerciais (como as que resultou nas mortes de Flash, Super-moça e Robin, entre outros). Não há sentido em se discutir distribuição de renda na Somália. O fato, aqui posto, é que editar quadrinhos no Brasil, para as grandes editoras, parece ser sinônimo de comprar pronto, com três anos de defasagem, o que é produzido nas grandes americanas, e eventualmente publicar um ou outro europeu. Ainda no sentido de evidenciar a importância do editor americano, cabe um exemplo. Muito se falou sobre o renascimento de Batman depois da obra de Frank Miller, “O Cavaleiro das Trevas”. Não há dúvida de que Miller é um excelente roteirista, dono de uma técnica narrativa invejável e um desenhista moderno e expressivo. O que ninguém falou, no entanto, é que “Cavaleiro das Trevas” só foi possível graças ao talento do editor, Denny O’Neil, desde fim da década de sessenta na ativa e causando pequenas revoluções. E foi O’Neil que, no começo de setenta, como roteirista, criou o Batman moderno que está aí até hoje. E deve ser creditado, em grande parte, aos editores, o mérito pela ressurreição do mercado de quadrinhos de super-herói nos EUA nos últimos dez anos.
No começo de oitenta, Raul Veiga, que acabara de chegar dos Estados Unidos, previa em seu fanzine “O Lobinho” a queda dos gibis de super-heróis, devido ao aumento dos preços das revistas e o congelamento das mesadas da garotada. E não é que as editoras deram a volta por cima, descobrindo o mercado adulto com a sofisticação de seus produtos. Não haja dúvida, portanto, que a presença do editor à frente da produção de quadrinhos, coordenando suas diversas etapas, participando ativamente de sua realização, é o segredo do sucesso da indústria americana de revistas de HQs.
No Brasil, esporadicamente se vê um editor nesses moldes. Um dos que parecem ter consciência de como um editor deve se portar é Octacílio Barros D’Assunção. Entre fim de setenta e início de oitenta, na Editora Vecchi, ele mostrou claramente, em etapas, como editar quadrinhos no Brasil. Publicou alguns almanaques de terror somente com enlatados de custo barato. Encontrando o público, passou a substituir os enlatados por material brasileiro engavetado ou republicando HQs antigas. O passo seguinte foi criar uma equipe de produção de quadrinhos, com talentos inquestionáveis, que manteve regularmente nas bancas uma meia dúzia de títulos, até a falência da editora, que não foi por culpa das revistas ou do editor. Peço desculpas por alguma injustiça que eu esteja cometendo, mas fora esse ou outro caso, o restante da atividade de editor se resume à mera compra de material estrangeiro, ao aproveitamento de modismos (Fofão, Gugu, He-Man), à utilização de personagens consagrados (Disney, Recruta Zero, Lulu e Bolinha), a iniciativas desarticuladas que, apesar de boas intenções, não chegam a consolidar, e, o pior, a picaretagem de muitas pequenas editoras.
Essa afirmação de que praticamente não há editor de quadrinhos no Brasil encontra reforço em dois fatos que narrarei, como exemplo. Em 1974, a Editora Abril lançou a revista “Crás! ”, formato “Veja”, colorida, papel de qualidade, somente com quadrinhos brasileiros. Essa revista durou dois números nesse formato e fórmula. Depois virou revista infantil. Nesses dois primeiros números, “Crás! ” se mostrou uma das melhores revistas já editadas nesse país. Trouxe material variado, praticamente tudo de qualidade, reunindo num mesmo miolo, Jayme Cortez, Lanzellotti, Ivan Rodrigues, Canini, Herrero, Ciça, Perotti, entre tantos. Uma autêntica revista de quadrinhos, precursora de “Inter Quadrinhos” e “Animal”. No mesmo curso mencionado no início desse texto, o editor da Abril presente informou que “Crás! ” não foi cancelada por problemas de vendas. Disse até que ela vendeu bem. O motivo do cancelamento, segundo ele, foi de falta de material para fazer a revista. Ora, parece brincadeira que no Brasil de dezenas de artistas talentosíssimos que não encontram espaço para publicar, uma revista de ótima qualidade tenha acabado porque não os encontrou. Esse é o maior atestado da incompetência do editor, ou, como venho defendendo, da inexistência de uma pessoa que possa receber esse nome de Editor. Mais recentemente outro fato grave aponta nessa direção. Desde meados de 86, depois do Plano Cruzado, o mercado de gibis no Brasil vinha se expandindo, em repetidos “buns”. Nem mesmo o confisco de cruzados novos, feito por Collor em sua entrada de leão, afetou o bolso do leitor de quadrinhos que continuou mantendo o mercado aquecido. Somente o agravamento da recessão, mais para o meio de 91, conseguiu afetar as editoras causando um festival de cancelamentos. Num desses “buns”, as grandes editoras lançaram revistas, minisséries, graphic novels de todo tipo. Parecia que o leitor estava comprando qualquer coisa. E estava mesmo, já que as editoras continuaram. Pois nesse mesmo praticamente nenhum lançamento foi de quadrinho brasileiro. Novamente, ora, se há uma ocasião tão propícia assim para se fincar as bases de uma indústria de quadrinhos brasileiros, aproveitando a avidez do leitor por novidades, para consolidar personagens, revistas e hábitos, e não há uma única revista lançada, agora pergunto, tem sentido usar a palavra Editor no Brasil?
EDGARD GUIMARÃES
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