domingo, 22 de julho de 2018

ENTREVISTA COM SÍLVIO RIBEIRO - MÚLTIPLO 20

INFORMAÇÃO IMPORTANTE: A REVISTA "QUADRINHOS FANTÁSTICOS II" JÁ ESTÁ NA GRÁFICA E ESTARÁ NA COMIC CON RS!!!

Entrevista com Sílvio ribeiro

Nome, idade, onde reside, onde nasceu.
Silvio Ribeiro, 56 anos. Nasci e moro em Porto Alegre
Como iniciou sua trajetória com os quadrinhos?
Comecei a rabiscar lá pelos 5 ou 6 anos, mas só fui me interessar por Quadrinhos algum tempo depois, quando tinha 11 ou 12. Enquanto a maioria das pessoas que me cercavam gostavam de Quadrinhos cômicos, como Disney e Mauricio de Souza, eu me interessei primeiro por Zorro, que eram histórias de aventura.

Já editou fanzines? O que mais publicou?
Quando ainda estava na engenharia conheci o fanzine ManyComics, do Élbio Porcellis. Quando ele resolveu parar o zine, eu me juntei a ele e produzimos mais uns 3 ou 4 números. Eu trabalho como Editor de Arte há mais de 23 anos e já fiz muitas publicações e ilustrações, que foram para mais de 100 países, em três línguas. Fora isto, tenho feito meus próprios livros. Em 2005 publiquei o livro "Silvio Ribeiro - Coletânea". Em 2009 desenvolvi um método para fazer ilustrações complexas de forma ágil no Photoshop, usando apenas o mouse. Isto acabou resultando no meu segundo livro, "Arte Digital - Silvio Ribeiro". Depois destas publicações comecei a receber várias sugestões de livros, cada um queria que eu ensinasse alguma coisa e foi aí que resolvi trabalhar durante 5 anos em um livro maior, "Curso Completo de Desenho Artístico", que ficou pronto e publicado em 2014. Fiz mais de 1000 ilustrações para este livro e quando ele terminou fiquei meio órfão, sem saber o que desenhar, então foi aí que tive a ideia de juntar um pessoal e publicar uma revista de Quadrinhos e contos de terror e ficção científica em 2015, "Histórias Fantásticas".

Sobre o que falam os seus desenhos? E trabalho?
Meus trabalhos são muito variados, sempre procurei aprender várias técnicas e meus artistas favoritos pintavam telas de fantasia e faziam quadrinhos e ilustrações com temas medievais, ficção científica, fantasia e terror e acabei indo pelo mesmo caminho. Já fiz alguma coisa de super-heróis, mas não tenho muito interesse neles.

Como lida com o cotidiano e as HQs? Concilia ou só trabalha com ilustrações e HQs?
Como disse, sou Editor de Arte e não faço só Quadrinhos, não vivo deles e nem pretendo, pois, Quadrinhos é uma coisa que paga muito mal, pelo menos em relação ao desenho para publicidade. As ilustrações que faço no meu trabalho são em estilos bem diferentes, mais cômicos e técnicos, então quando posso faço aquilo que realmente gosto, os estilos citados anteriormente. Trabalho 6h por dia, mas fora isto, sempre tem alguma questão particular para resolver, o tempo que sobra divido entre telas a óleo, Quadrinhos e ilustrações avulsas.

Qual (is) parceria (s) mais realizou? Qual valeu mais a pena trabalhar?
Acho que a melhor parceria que fiz foi quando juntei vários artistas nacionais para publicar a revista "Histórias Fantásticas". Sou da engenharia e nesta área de trabalho há muito individualismo, cada um resolve seus problemas, talvez por isto eu goste de trabalhar sozinho. Faço os textos e os desenhos de minhas HQs.

Como se vê no universo de HQ nacional?
Trabalho para agradar uma única pessoa, a mim mesmo e assim é que me vejo fazendo Quadrinhos no Brasil. Sou de uma época em que não havia nem computador e muito menos internet. Tudo era mais difícil, publicar uma HQ era quase impossível. Haviam alguns "desbravadores", que abriam suas editoras hoje e fechavam amanhã. Agora, entretanto, está muito mais fácil publicar uma HQ. O lado positivo disto é que muito artista bom não tinha oportunidade de mostrar seu trabalho. O lado ruim é que qualquer um publica uma HQ atualmente, com ou sem qualidade. Não vou entrar naquela discussão boba e dizer que o Quadrinho nacional não tem qualidade. O problema é que o pessoal aqui é colonizado e isto não tem como negar. Engolem tudo o que vem dos EUA e por outro lado têm um senso crítico exacerbado com a produção nacional. Tem os bons e tem os ruins, o que não dá pra fazer é colocar tudo no mesmo saco. Da mesma forma, o Quadrinho dos EUA produz alguns trabalhos que não valem nem o papel que é impresso e as livrarias estão cheias. Sou mais um dos tantos batalhadores do Quadrinho Nacional, e é assim que me vejo. Algumas vezes digo às pessoas, elas não acreditam, mas eu não tenho interesse de publicar nos EUA. Seria frustrante para mim, desenhar Batman ou Homem-Aranha. Me realizo mais fazendo minhas publicações independentes e de alguma forma, contribuindo para elevar a qualidade do nosso Quadrinho.

Qual o gênero que mais trabalha? Tem alguma preferência?
Nas minhas telas tenho abordado muito os temas medievais, também um pouco nos Quadrinhos, mas o gênero que mais tenho trabalhado são as HQs de terror. Gosto do Quadrinho antigo de terror, da década de 60, e tenho procurado resgatar um pouco delas nos meus trabalhos.

Há alguns anos você e um grupo de artistas publicaram uma revista, a “Histórias Fantásticas”, sobre o que a revista falava? Eram HQs sobre algum tema específico?
A ideia inicial desta revista era fazer algo como Crypta e aquelas revistas de terror antigas. Os temas principais eram terror e ficção científica e como contou com colaboração de vários artistas, as histórias eram bem diversas.

Fiquei sabendo dessa publicação através do Facebook, e logo corri atrás e consegui um exemplar. Essa semana (25 de fevereiro), fiquei sabendo que você está chamando os participantes da primeira edição para uma nova publicação. É verdade? Sobre o que a nova revista irá falar, sobre o mesmo tema?
Os temas são basicamente os mesmos, terror, ficção científica, e acrescentei fantasia. Fiz 300 exemplares da edição anterior da revista e esgotou mais rápido do que eu imaginava. Até hoje algumas pessoas me pedem. Agora vou repetir a dose, mas tive que mudar o nome, pois o anterior já havia sido usado no passado em outra revista. Esta publicação em que eu e os colaboradores estamos trabalhando agora, seguirá o mesmo estilo, como se fosse uma nova edição, entretanto, ela se chamará "Quadrinhos Fantásticos".

Tem alguma previsão para o lançamento?
Se tudo correr como espero, será publicada em julho deste ano. Parece um prazo longo, mas temos que ter em mente, que serão vários artistas, todos com seus próprios compromissos. Além disso, para negociar os preços com a gráfica, quanto mais prazo dermos, melhor será o valor cobrado.

O que o motivou a relançar essa revista?
O que me motivou é simples, eu não consigo ficar parado. Eu gosto muito disto e estou sempre procurando desculpas para desenhar. Quem é entusiasta e trabalha de forma independente vai entender bem o que estou falando. Por isto que num comentário, um dia destes eu disse, todo o pessoal que lida com Quadrinhos nacionais, seja criando ou divulgando, é um guerreiro. Não basta todo o seu esforço e investimento, você ainda tem que estar disposto a aguentar os críticos de plantão. Para ajudar são poucos, mas para criticar...

Espera a mesma receptividade da primeira?
Para esta edição estou pensando em 500 exemplares. A primeira foi excelente, mas esta será épica. Teremos novamente o Shimamoto e também, a participação de uma artista canadense, Louis Paradis, que faz um ótimo trabalho. Sem contar alguns veteranos da primeira edição, como Rom Freire, Henry Jaepelt e Fernanda Reche. Também tem os estreantes Carlos Alberto Oliveira, Clayton Cardoso e o Denílson Reis, que empresta seu personagem para uma HQ minha. Não tem como não ficar otimista.

Já tem algum canal de distribuição?
Cada artista recebe uma certa quantidade de exemplares para distribuir como achar melhor, mas o grosso fica comigo. Facebook e sites relacionados a Quadrinhos são acionados. Os 300 exemplares da primeira edição se esgotaram rapidamente, agora farei mais e talvez demore mais um pouco. Tudo faz parte do processo de ser um editor independente.

Voltando ao seu trabalho, como classifica o seu traço?
Eu sempre persegui o estilo clássico dos grandes artistas como Harold Foster, Alex Raymond, Frank Frazetta, Al Williansom, Wally Wood... Talvez por isto não tenha muito interesse em super-heróis. Este estilo de desenho que vejo hoje, onde aparece até as veias do personagem, como se seu uniforme fosse pintado no próprio corpo, não me agrada e não tenho interesse em fazer.

Tem algum personagem que goste mais? Por que?
O primeiro personagem que me chamou a atenção foi o Zorro. Mas um dia caiu uma revista do Homem-Aranha nas minhas mãos, desenhada por Gil Kane, e aí passei a colecionar as revistas do personagem e a fazer centenas de desenhos com ele. Nesta época, gostava muito do trabalho do John Romita, John Buscema, Jim Mooney e do próprio Gil Kane.

Como vê o universo de quadrinhos e fanzines no Brasil?
Existe muita coisa boa, mas também muita coisa ruim. É como já falei antes, todo mundo consegue fazer sua revista atualmente. Porém, acho um fato positivo que tenham tantas publicações. Muita coisa boa vai continuar e o que é ruim acaba não indo adiante. Aqui eu gostaria de fazer um parêntesis, também dou aulas de desenho artístico e com o advento do Facebook, tenho perdido alunos, pois qualquer um que faz um rabisco vai lá e posta e já se acha um "artista". Isto é uma coisa que eu lamento. O resultado disto é você ver várias publicações e personagens sem condições nenhuma sendo publicados. Outra coisa que eu lamento é a quantidade de "cursos de desenho" que tem por aí, onde o cara aprende não desenho, mas sim rabiscar toscamente super-heróis e já sai se dizendo desenhista e publicando. Sempre exigi muito de mim mesmo e acho que esta é a receita.

O que acha necessário para que esse universo se fortaleça e vença?
O Brasil é um país colonizado e para mudar isto não será fácil. A grande mídia é a maior ferramenta de dominação estrangeira dentro do nosso país e mesmo outras modalidades artísticas, já consagradas, sofrem com isto e as produções estrangeiras tomaram conta. Você entra, por exemplo, em uma grande livraria, a maioria dos livros ou é em língua estrangeira, importados, ou traduções de obras estrangeiras. Para autores nacionais o espaço é pouco. Um autor estrangeiro escreve um livro com mais de 200 páginas, com uma historinha que caberia num livro de bolso, mistura Da Vinci com mais um monte de bobagens e no Brasil vira um Best Seller. Neste contexto, não vejo como os Quadrinhos nacionais saírem do campo dos independentes. Então, o que acho necessário para que os Quadrinhos brasileiros tomem o seu lugar de direito, é que o brasileiro adquira amor próprio e que comece a gostar do Brasil e que valorize a nossa cultura, mas acho que isto só será possível se um dia algo acontecer no nosso país com a capacidade de criar uma nova grande mídia, que seja voltada para os interesses do Brasil.

Você trabalha também com curso de HQs? Como funciona?
Não tenho trabalhado com cursos de HQ por dois motivos principais. Primeiro, porque quero que as pessoas aprendam a desenhar para depois fazerem Quadrinhos. Segundo, porque os grandes artistas, que admiro tanto, nunca fizeram curso de HQ. Harold Foster, por exemplo, que é considerado por muitos, inclusive por mim, como o maior autor de Quadrinhos de todos os tempos, nunca fez curso de HQ. Nem o John Buscema, um artista da Marvel muito admirado até hoje. Este pessoal fazia curso de artes ou desenho comercial e por uma razão qualquer em suas vidas acabavam indo fazer Quadrinhos. Isto não significa que não possa dar aulas de Quadrinhos, mas o aluno vai ter que aprender desenho ou já ter o traço desenvolvido.

Qual (is) trabalho (s) seu (s) mais se destacou? Tem algum preferido?
Nestes 56 anos já fiz tanta coisa... Não saberia dizer qual mais se destacou. Fiz tantos trabalhos para o Brasil e para fora, que muitos nem cheguei a ter retorno. Não tenho nenhum preferido, sou muito crítico com o que faço, o melhor sempre será o próximo. Se tivesse que destacar uma obra minha, seria o meu livro "Curso Completo de Desenho Artístico". Nenhum artista no mundo fez um livro de desenho que abordasse tantos temas.

O que diria a quem está começando?
Aprendam. Estudem. Tenham senso crítico e que tenham muito cuidado com as armadilhas que tem na internet. Há muita gente que não sabe, ensinando. Fiquem atentos. Procurem conhecer a arte do mundo todo. Não se fixem só no que é feito nos EUA.

Acha que o quadrinho nacional segue alguma linha?
Infelizmente, o Quadrinho Nacional está muito ligado a super-heróis e é por isto que digo, este universo é só mais um, não representa a totalidade dos Quadrinhos.

Você costuma publicar no exterior? Como funciona esse mercado lá fora?
As minhas publicações no exterior são ligadas ao meu trabalho como Editor de Arte ou como freelancer, então sempre trabalho para uma empresa, que geralmente é grande e não tem dificuldade em divulgar. Não faço Quadrinhos para o exterior, pois como já escrevi, não compensa financeiramente, além do que, as exigências transformam o trabalho do artista em um sacerdócio. Isto não é para mim, gosto de ter liberdade no que faço e não aceito ingerência no meu trabalho.

O caminho da HQ nacional passa por? Como evoluir a ponto de se tornar uma potência da HQ?
Não sei responder esta questão, pelo menos enquanto continuarmos colonizados. Não há qualidade ou o que se possa fazer enquanto os estrangeiros dominarem as informações no Brasil.

Tema livre. Fique à vontade para expor suas ideias e compartilhar momentos.
O Brasil foi sempre o país do Carnaval e do futebol. Aos poucos está deixando de ser o país do futebol. O futebol europeu está tomando conta, com ajuda da grande mídia. Não demora as escolas de samba também serão dos estrangeiros. A música, o cinema, os Quadrinhos, já são deles. Não vejo neste contexto, como os Quadrinhos Nacionais possam evoluir e tomar as bancas. Talvez se acontecer uma "revolução” nos Quadrinhos, aos moldes do que aconteceu na Argentina nas décadas de 60 em 70, onde os autores deste país conseguiram se impor e quase expulsar os enlatados neste período. Grandes artistas surgiram por lá.

Alguma questão que gostaria de abordar?
Só uma. Não seja um zumbi da grande mídia. O poder deles de mentir e enganar é muito grande. Se você abrir os olhos e conseguir sair da Matrix vai ver que o Brasil pode ser muito maior e independente. Se assim for, a Cultura brasileira irá se sobrepor e com ela também os Quadrinhos e tudo que faz parte dela.