terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

SHIMAMOTO, O MESTRE

SHIMAMOTO, O MESTRE
Por André Carim

Falar de um dos mestres do Quadrinho Nacional não é tarefa nada fácil. O que dizer mais sobre o Samurai dos Quadrinhos, mestre Júlio Shimamoto, que já foi não dito, pesquisado, distribuído, disseminado? Tive o grande prazer de, nos momentos ativos do velho Múltiplo, estar em contato com o mestre através de cartas, fanzines e colaborações, o que rendeu uma brilhante capa para uma das edições do fanzine (foto ao lado), onde sua arte, na maioria das vezes preto e branco, abrilhantou a edição daquela época.
É sabido por nós da participação do mestre na Cooperativa Editora de Trabalhos de Porto Alegre (CETPA), nos anos que antecederam a ditadura militar. E é sobre esse momento que vamos falar agora. Entre goles de chimarrão e cafezinhos, um grupo de quadrinistas nacionais, àquela época com seus 20 anos de idade, viriam participar de uma aventura inédita até então, a de produzir HQs nacionais rivalizando com aquelas vendidas nas bancas do país e que vinham, principalmente, dos EUA.
Júlio Shimamoto e Luiz Saidenberg estavam entre os mais brilhantes desenhistas de HQ do país, entre nomes como Renato Canini, João Mottini e Flávio Luiz Teixeira, além do argentino Aníbal Bendati, juntamente com Flávio Colin e Getúlio Delphim. Shima, com vários desses desenhistas, ficavam no estúdio da capital gaúcha. E de lá fundaram a CETPA, em fevereiro de 1962, sob o apadrinhamento do então governador do Estado do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (foto ao lado). Uma ideia semelhante havia sido apresentada a João Goulart por Zé Geraldo. Em São Paulo havia a ADESP (Associação de Desenhistas do Estado de São Paulo), criada por Jânio Quadros e então presidida pelo ainda iniciante Maurício de Souza.
Chegou-se a uma proposta de reserva de 30% do mercado de HQs aos quadrinhos nacionais, proposta essa vindo de Jânio Quadros, que tinha como objetivo nacionalizar toda a produção de quadrinhos no Brasil, num curto espaço de dois anos. O projeto, como quase tudo que beneficia o brasileiro, foi engavetado, assim como a proposta de Lei que reservava 60% das publicações para os quadrinhos nacionais quem nem do papel saiu.
Todos nós sabemos que, para as Editoras, é muito mais rentável importar HQs do que produzir quadrinhos nacionais, devido ao seu alto custo com material e profissionais. Os direitos autorais nacionais não eram respeitados, os nacionalistas diziam que não queriam acabar com as HQs estrangeiras, queriam apenas que o quadrinho nacional fosse valorizado e pudesse ter o seu espaço. A justificativa mais comum para não apoiar o artista nacional era de que a comercialização de revistinhas seriam má influência para a juventude.
O apoio não vinha, e após a renúncia de Jânio, Brizola encomendou à CETPA uma história em quadrinhos sobre o movimento, a História da Legalidade, esboço de Saidenberg e desenhos de Shimamoto (foto acima).
“Nós contávamos a resistência de Brizola e do general Machado Lopes, comandante do Terceiro Exército, contra a conspiração dos militares denominados “Forças Ocultas”, liderados pelo general Orlando Geisel, irmão do futuro presidente Ernesto Geisel”, conta Shima, hoje com 77 anos, em entrevista ao blog. “Mas Brizola vetou, dizendo que a publicação do álbum seria ‘demagogia barata’. Não fomos pagos pela tarefa, mas Zé Geraldo nos propôs outros álbuns de cunho educativo. Éramos solteiros, e decidimos, eu e Luiz, mudar de mala e cuia para o Sul. ”
Todos aqueles quadrinistas que participaram dos movimentos em prol do quadrinho nacional acabaram rotulados como ‘comunistas’ e as portas do mercado editorial se fecharam para eles até o início de 1970.
O talento de Shimamoto é visível em cada HQ, ilustração ou xilogravuras em plástico descartável desenvolvidos por Júlio Shimamoto. “Esta é a característica básica dos meus trabalhos atuais, (excluindo ferro de soldar), parecer xilo. Quando uso tinta branca sobre a cartolina preta, ou tinta preta sobre a cerâmica, azulejo ou plástico descartável, obtenho o mesmo efeito xilográfico dos tradicionais clichês de madeira. Eis a razão de distinguir meus “xilos” de xiloshima, ceramicxilo, xiloceramic, xiloplástico ou xiloplastic. Uso plásticos descartáveis, sacolinhas para jornal, de supermercados, papéis de embrulho plastificados, fitas adesivas, face interna de caixas de suco, de leite, acetatos de encapar cadernos, livros, etc. Embora correta, a denominação, plasticogravura não evoca xilo, concorda? Poderia ser plástico pintado com óleo, acrílico, ou com tinta naquim. ” – Definia Shimamoto em uma das publicações de sua página no Facebook.
Em 1980, com roteiro de Felipe Ferreira, pela GIBI, apresentou sua arte ilustrando Pedro e Bino, da série de TV Carga Pesada, mais um exemplo de seu talento na arte em preto e branco. (Foto acima: reaproveitamento de papel com os escritos ao fundo).
Durante sua trajetória no universo de HQs nacionais, contribuiu com diversos fanzines, entre eles Tchê número 38, onde publicou a capa, bem como diversas HQs espalhadas pelo movimento zineiro. Este fanzine, inclusive, teve a honra de estampar em uma de suas edições antigas uma capa simplesmente fantástica do mestre Shima. Sua arte pode ser considera experimental, pois utilizava de diversos materiais em busca da melhor ilustração.
Júlio Shimamoto continua inovando e explorando em suas experiências, e como todos nós, também chegou à era da internet, utilizando-se de um tablete (mesa digitalizadora – foto ao lado) para desenhar e encantar a todos nós com sua arte.
Ilustrou com maestria o livro da escritora Anne Raquel Sampaio, “Era uma vez um rio”. Participou da série Histórias Macabras, da Editora Outubro, ilustrando roteiros de Ivan Saidenberg, a HQ de nome ‘Jardins da Morte’, uma história de vampiro onde começa com uma vítima encontrada morta na frente do portão que dá para um local conhecido com o nome título desta HQ. A história se propõe a investigar o responsável pela morte, mas são tantas as opções dentro da casa que se chega mesmo a esquecer que há um vampiro à solta, vale conferir a HQ não apenas pelo roteiro inteligente, mas pela arte do mestre Shima.
A grande verdade é que eu poderia passar o dia escrevendo e dando exemplos da arte sensacional do mestre Shimamoto, mas deixo aqui uma reticência, para que você busque e se informe mais sobre a arte deste magnífico desenhista chamado Júlio Shimamoto, e que não sou eu quem diz, mas a grande maioria dos ícones do quadrinho nacional, que nunca deixarão de reverenciar a arte ímpar deste mestre do quadrinho nacional e que já conquistou o seu destaque no cenário nacional, não somente ativamente em revistas e trabalhos experimentais, como também na arte alternativa de pessoas que, como eu, tiveram o prazer de publicar seus trabalhos.
E que você nessa busca encontre e encante-se como eu me encantei mais ainda pelos trabalhos do mestre...
Fontes de pesquisa:
Página do Facebook: https://www.facebook.com/julioyshimamoto/?ref=ts&fref=ts
Blog da Socialista Morena: http://www.socialistamorena.com.br/
Blog Histórias Comentadas: https://historiascomentadas.wordpress.com/2014/10/31/os-jardins-da-morte/
Portal Ecodebate: http://sosriosdobrasil.blogspot.com.br/2013/03/era-uma-vez-um-rio-de-anne-raquel.html